sexta-feira, 27 de abril de 2012

Aqui tem Cultura Publica - Suzano


Antônio Abujamra e Rappin Hood vêm a Suzano para palestra e show

Diário de Suzano ed.: 9186 - 26 de abril de 2012

O diretor e ator Antônio Abujamra se apresenta nesta hoje, às 20 horas, no Teatro Municipal Dr. Armando de Ré (Rua General Francisco Glicério, 1.354, Centro). Além dele, amanhã, a cidade também recebe o show do rapper Rappin Hood, que será realizado no Centro Cultural Boa Vista (Rua Katsutoshi Naito, 957, Boa Vista), a partir das 18 horas.

Realizados pela Prefeitura de Suzano, por meio da Secretaria de Cultura, os eventos são gratuitos e fazem parte da programação de aniversário dos 63 de Suzano.

A palestra com Abujamra faz parte do projeto "Trajetórias Literárias", que já trouxe a Suzano nomes como Ariano Suassuna, Marcelo Rubens Paiva e Paulo Lins. Os ingressos deverão ser retirados no local com uma hora de antecedência.

"Seria inadmissível não trazê-lo a Suzano. Ele tem uma contribuição muito grande a dar à cidade por sua experiência e talento. Ele dialoga com TV, teatro, jornalismo, literatura e cinema e vai abarcar todas essas áreas em sua apresentação", ressaltou Ademiro Alves, o Sacolinha, coordenador literário da Secretaria de Cultura.


Abujamra já dirigiu mais de 120 peças, 15 novelas e vários outros programas televisivos. Foi o único latino-americano a participar no Júri do Festival Mundial de Televisão em Monte Carlo, a convite do Príncipe Rainier, de Mónaco. Fundou a companhia de teatro "Os Fodidos Privilegiados" e há 11 anos comanda o programa de entrevistas "Provocações", na TV Cultura.

Nascido em 1932, no município paulista de Ourinhos, Abujamra foi um dos primeiros a introduzir os princípios e métodos teatrais de Bertold Brecht, Roger Planchon e outros mestres da contemporaneidade em palcos brasileiros. Participou da revolução cênica entre os anos de 1960 e 1970. Ousadia, inventividade e espírito provocativo são características de seu trabalho. Nos anos 1980 e 1990, desenvolveu espetáculos em que crítica e lúdico se fundem num ceticismo bem-humorado, que é o eixo de sua personalidade.


Entre os nomes já dirigidos por ele, estão António Fagundes, Lima Duarte, Paulo Goulart, Denise Stoklos, Ana Paula Arósio, Cláudia Jimenez, Cláudia Abreu, Marcos Palmeira, Cacilda Becker, Glauber Rocha, Ruth Escobar, Regina Duarte, Marília Pêra, Eva Wilma, Tássia Camargo e António Grassi, entre muitos outros.

RAPPER Rappin Hood é um dos mais conceituados e respeitados rappers brasileiros. Já gravou com artistas consagrados, como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Jorge Ben Jor e Leci Brandão, entre outros. Foi pioneiro a abordar o tema hip hop na televisão brasileira, no programa "Manos e Minas", na TV Cultura. Atualmente apresenta o programa "Rap du bom", na rádio 105FM.


A programação desta sexta-feira começa às 18 horas, com a apresentação dos grupos de Suzano: Consciência ao gueto, Família Dossyê e Ktarse. A expectativa é atrair um público de mais de duas mil pessoas.

"Já vieram para a cidade Racionais MCs, GOG, Edi Rock, entre outros, mas ainda faltava trazer um artista que mesclasse o envolvimento social e cultural e o Rappin Hood reúne todas essas qualidades", destacou Sacolinha.

Salão Internacional do Livro de Suzano recebe público de 100 mil pessoas


Evento organizado pela Prefeitura, por meio da Secretaria Municipal de Educação, trouxe diversas personalidades ao município e contou com vasta programação cultural
WANDERLEY COSTA
O I Salão Internacional do Livro de Suzano, promovido pela Prefeitura de Suzano, por meio da Secretaria Municipal de Educação, recebeu mais de 100 mil visitantes de várias cidades do Alto Tietê e região metropolitana. O evento foi realizado entre os dias 13 e 22 de abril, no Parque Municipal Max Feffer, e superou as expectativas dos organizadores. Para a realização do evento, inédito no Alto Tietê, foram investidos R$ 3,5 milhões.
Ao longo dos dez dias de evento, foram realizadas no local mais de 100 horas de programação nos diferentes espaços temáticos, elaborados conforme o perfil dos visitantes: Trajetórias Literárias, que trouxe escritores para conversar com o público; Encantos Pedagógicos, voltado para a formação de educadores; Espaço Criança e Tenda do Circo, com contação de histórias e apresentações teatrais; Literatura no Brasil – Autores Regionais, que promoveu sessões de autógrafos e apresentações culturais de artistas de Suzano e região; Ciranda Lilás, voltado às discussões sobre gênero e raça/etnia; e Suzano + 20, que discutiu a temática ambiental.

A estrutura do salão tinha 10 mil metros de área física, 61 estandes, cerca de 400 editoras e mais de 30 mil títulos em exposição.

Autores renomados das áreas da literatura, educação, cinema e televisão, como Mario

Sergio Cortella, Marcia Tiburi, Fernando Carraro, Heródoto Barbeiro, Audálio Dantas e Paulo Lins, revezaram-se em palestras e bate-papo com seus fãs. Eles falaram sobre suas trajetórias de vida e desafios da profissão.

Um dos principais objetivos do I Salão Internacional do Livro de Suzano foi despertar nos cidadãos o desejo pela leitura, aproximá-los dos livros e de seus autores. Para que isso acontecesse efetivamente, a Secretaria de Educação disponibilizou ônibus gratuitos para toda a população em todos os dias do evento, inclusive aos finais de semana.

Os 23 mil alunos da rede municipal também puderam prestigiar o salão. Diariamente eles foram transportados para o evento, onde participaram de atividades de contação de histórias, teatro e música na “Tenda do Circo”. Todos eles receberam ainda um cheque-livro no valor de R$ 10, para aquisição de material a livre escolha.

Os professores também receberam um cheque-livro de R$ 20 e as escolas, um crédito no valor de R$ 3.800,00 para aquisição de material didático que serão utilizados nas unidades escolares.

Uma das principais atividades do salão foi o lançamento da Escola Livre de Trabalhadores, realizado em 19/4, e que contou com a presença da professora da Universidade Livre do Porto, de Portugal, Teresa Medina, que falou sobre a experiência vivenciada em seu país.

O programa pretende recriar na cidade as experiências de educação feitas por trabalhadores de outras partes do Brasil e do mundo, que afirmam as práticas culturais como direito a ser garantido às camadas populares e aos trabalhadores.

A Escola Livre de Trabalhadores de Suzano terá um conselho consultivo composto por escolas, sindicatos, empresas e comunidade, que irá determinar as atividades.

O prefeito de Suzano, Marcelo Candido ressaltou a adesão da população à atividade. “O evento superou as nossas expectativas”, disse ele sobre o grande número de visitantes.

Candido disse que organizar o Salão do Livro foi um grande desafio à administração, e que o objetivo é que a população se aproprie dele para que outras edições sejam realizadas. “Apesar de ser o primeiro, o salão já é uma referência importante para a cidade e razão de muito orgulho”, completou.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Dica a leitura

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A produção cultural nas periferias


Em São Paulo há 96 distritos, dos quais 57 ficam na periferia e somam 6.838.641 habitantes. Essas pessoas estão distantes dos grandes centros onde são instalados cinemas, teatros, casas de espetáculos da cidade. O jeito, então, é fazer a cultura existir nas suas quebradas
Sarau da Cooperifa: 10 anos movimentando a zona sul de São Paulo
Sarau da Cooperifa: 10 anos movimentando a zona sul de São Paulo
Foto: http://www.curtasaraus.blogspot.com
O habitante da capital paulista, conhece as periferias de sua cidade? E a produção cultural surgida e muitas vezes autofinanciada que lá acontece? Com a pauta sobre o tema, constatei que conheço pouco ou praticamente nada da periferia.

Mais gente vive assim, sem saber o que está acontecendo por aí... Por meio da internet é possível “ir” um pouco até as periferias, ter uma noção do lado B da diversidade cultural brasileira. Cada periferia tem sua especificidade e, dependendo do enfoque, ela pode ser um conceito relativo. Mas o resumo simplista para definir periferia pode ser como o local onde pessoas vivem, fora do centro das grandes cidades. Para a urbanista Raquel Rolnik, a cultura da periferia ganhar cada vez mais espaço dentro e fora dela.

Em São Paulo há 96 distritos, dos quais 57 ficam na periferia e somam 6.838.641 habitantes, ou seja, 63% da população, com dados do IBGE de 2010. São onze regiões com população acima de 200 mil habitantes. Todas na periferia: Sapopemba, São Miguel, Jardim São Luís, Jardim Ângela, Jabaquara, Itaquera, Itaim Paulista, Grajaú, Cidade Ademar, Capão Redondo e Brasilândia. População total: 2.688.757 habitantes, mais do que em quase todos os 39 distritos não periféricos de São Paulo juntos. É importante saber como  vivem essas pessoas. Um povo pobre, trabalhador, que luta e busca ser feliz apesar de tudo. “Um povo lindo, um povo inteligente”, como dizem os poetas da Cooperifa. Um povo que merece ser visto pelas lentes da TV mostrando aquilo que tem de mais bonito.

Já disse Antônio Abujamra, em seu programa Provocações, que “as periferias desse enigma brasileiro, periferias que, ao contrário do que era de se esperar, vão buscar inspiração na Jamaica para fazer músicas de letras quilométricas: rap, hip-hop, funk. As pessoas, gostem ou não dessas coisas, não podem ignorar que é por onde a periferia descarrega seu discurso político; avisando à classe média e às elites para irem devagar, que as coisas têm limite”.

“Esse grande estilo de vida que é o hip-hop está aí pra criar alternativas ao que está aí exposto”, explica o rapper GOG. Genival Oliveira Gonçalves também é das periferias, mas de Brasília. Mais antigo, tem no discurso não só uma das questões básicas que definem periferia, a exclusão social, mas também o tema racial, de crítica à mídia corporativa e, indo além, em nome dos que morreram torturados pela ditadura.

Se a produção cultural da periferia seguir GOG, muita coisa poderá ser diferente no futuro... Os militantes do setor acreditam que a cultura revoluciona. É uma boa aposta! Ele crê na mudança do modus operandi... E vai direto ao ponto: “Se não nos dão oportunidade de mostrar, vamos criar todo um mundo paralelo para fazer isso. É preciso dizer que no Brasil existe uma luta de classe, de verdade!”.

Não só as palavras, muitas vezes duras, do hip-hop estão nas periferias. Saraus de poesias, cinema na laje, peças de teatro, exposições e instalações artísticas.

Indignações seletivas: a crise da USP


Protesto na USP pela expulsão de estudantes
Protesto na USP pela expulsão de estudantes
Foto: Folhapress/Nelson Antoine
Lemos no noticiário que seis estudantes da Universidade de São Paulo foram expulsos da instituição devido à suposta participação em atos de vandalismo ocorridos na ocupação da Coordenação de Assistência Social (Coseas) em 2010. O reitor, João Grandino Rodas, alega que um processo disciplinar instaurado após o evento teria comprovado a participação dos seis estudantes da Escola de Comunicação e Artes e da Faculdade de Filosofia na depredação do patrimônio e desaparecimento de documentos. Os alunos negam e asseguram que devolveram tudo que estava no prédio em ato público; alguns ainda afirmam que nem sequer estiveram na ocupação, o que caracterizaria então uma perseguição política.

É sintomático que as expulsões ocorram no mesmo ano em que a polícia entrou no campus, por solicitação do reitor, para retirar os alunos que também ocuparam o prédio da reitoria para protestar contra a presença de policiais na USP, que, em nome da segurança após o assassinato de um aluno da Faculdade de Economia, estariam abordando alunos e até professores (quase todos dos cursos de Humanidades, é bom que se diga) com o famoso modus operandi truculento da tropa paulista. E em um momento que alguns professores, em nome da “legalidade”, estariam reprovando alunos por faltas em razão da greve que realizam desde a invasão da polícia ao campus. Em todos esses casos, não faltaram vozes da chamada “opinião pública” felicitando a direção da universidade pelo rigor contra os “vagabundos” e “maconheiros”.

Decerto que ninguém em sã consciência defenderia gratuitamente depredação de patrimônio público ou a aprovação de alunos sem a devida presença em situações normais, mas não parece ser esse o caso. A universidade brasileira, e em especial a USP, parece estar vivendo um grande déficit democrático, com uma estrutura incapaz de responder de forma adequada, e sem truculência, aos problemas internos. Comparar as manifestações dos alunos com uma simples “baderna”, sem abrir espaço para um diálogo realmente propositivo, inclusive para dissuadir eventuais posturas mais extremistas de grupos políticos mais radicais, é no mínimo má vontade. E aplaudir o acionamento de forças de repressão para resolver esses problemas é um atestado de incompetência acadêmica e política.

Mas a estranheza fica maior quando comparamos o rigor e o rito quase sumário dessas decisões uspianas com eventos que ocorreram há pouco tempo e não parecem ter despertado a mesma indignação nos paladinos da law and order que grassam hoje pela internet e por outras mídias. Em outubro de 2010, no InterUnesp, evento dos alunos da Unesp, alguns desses discentes organizaram pelas redes sociais aquilo que ficou conhecido como “rodeio das gordas”, que consistia em subir violentamente nas costas de alunas consideradas “feias” ou “gordas” como se estivessem em cavalos de rodeio. Após repercussão negativa na imprensa, foi aberto processo disciplinar e os três alunos identificados como promotores dos atos violentos foram apenas suspensos por cinco dias. Os organizadores do InterUnesp decidiram bani-los das próximas edições. O Ministério Público das cidades de Araraquara (onde ocorreu o evento) e de Assis (onde fica o campus de alguns dos acusados) resolveram agir e propuseram a não abertura de processo se cada um doasse vinte salários mínimos em cestas básicas a instituições assistenciais. Dois deles aceitaram. O que recusou foi processado por danos morais e, caso condenado, deverá pagar cinquenta salários mínimos de indenização.

Salvo algumas notas na imprensa, quase ninguém se manifestou com o mesmo furor contra esses jovens que praticaram tal violência contra alunas da universidade, para não falar da punição branda que a própria instituição aplicou, apesar dos comunicados indignados divulgados pela direção à época. Cabe a pergunta: dois pesos e duas medidas? Uma manifestação, independentemente de equivocada ou não, contra um regimento interno do período da ditadura militar é descrita como “baderna”. Outra, típica da misoginia que anda de mãos dadas com outras formas de intolerância em nossa sociedade, é tratada como algo apenas pueril. Uma questiona estruturas de poder retrógradas na sociedade, outra é expressão típica dessas estruturas. Se fosse honesto o legalismo mobilizado por dirigentes e alguns professores para aplicar punições, seria de esperar rigor idêntico para ambos os casos e uma onda de indignação pelos chamados formadores de opinião em seus blogs. Mas não foi isso o que observamos.

Certamente não chegam a ser estranhas essas indignações seletivas, quando vemos casos como o do recente livro do jornalista Amaury Ribeiro Jr., lançado no final de 2011. Repleto de dados sobre irregularidades nos processos de privatizações promovidas no governo FHC e sério candidato a best seller pela grande procura nas livrarias, A Privataria Tucana passou quase desapercebido pela imprensa e por seus leitores, vanguardeiros da moralidade...  
Agnaldo dos Santos é professor da Unesp-Campus Marília e membro do Núcleo de Estudos d’O Capital do PT-SP

Juventude, juventudes


As juventudes apresentam elementos comuns e de diferenciação. Atentar para esses aspectos pode ser crucial para discutir as políticas públicas voltadas para esse segmento e, talvez o principal, problematizar as especificidades do papel da instituição escolar no mundo atual
Diversidade das juventudes é fundamental para gerar política públicas amplas
Diversidade das juventudes é fundamental para gerar política públicas amplas
Foto: José Cruz/ABr
Discutir a juventude na contemporaneidade leva-nos a tomar duas precauções importantes: entender que a noção de juventude é uma construção social e cultural e, além disso, bastante diversificada; e compreender que a noção de juventude não pode ser definida isoladamente, mas a partir de suas múltiplas relações e contextos sociais. Nesse sentido, pensar a ideia de juventude é pensar sobre condições de gênero, raça, classe social, moradia e pertencimento religioso. E, o principal, contextualizá-la historicamente, como integrante de uma geração específica que se relaciona com outras gerações. Por isso, como já tem sido bastante reiterado pelos especialistas, não é possível falar no jovem atual, mas nos diferentes modos de vivenciar a juventude na contemporaneidade.

“A ‘juventude’ é apenas uma palavra”, afirma Bourdieu, ao abordar a noção de juventude. Para ele, as divisões entre as idades seriam arbitrárias: “Somos sempre o jovem ou o velho de alguém”. Sendo assim, os cortes, em classes de idade ou em gerações, teriam uma variação interna e seriam objeto de manipulação. Portanto, juventude e velhice não seriam dados, mas construções sociais oriundas da luta entre os jovens e os velhos. Dessa maneira, as relações entre idade biológica e social seriam muito complexas. Pode-se apreender, portanto, que tal noção configuraria um elemento que faz sentindo somente no contraste entre os mais novos e os mais velhos.

Entretanto, para outros autores estudiosos da juventude e de suas práticas, seria mais que uma palavra. Em texto cujo título já apresenta um contraponto a Bourdieu – “A juventude é mais que uma palavra” –, Mario Margulis e Marcelo Urresti propõem a superação de considerações sobre a juventude como mera categorização por idade, com características uniformes: “A condição histórico-cultural de juventude não se oferece de igual forma para todos os integrantes da categoria estatística jovem” (tradução  minha). Para eles, a discussão feita por Bourdieu leva à percepção da juventude como “mero signo”, como “uma construção cultural desgarrada de outras condições”. Assim, a noção, como definida por Bourdieu, é desvinculada de seus condicionantes históricos e materiais.
Os dois autores reforçam a necessidade de atentar para o modo como a condição de juventude manifesta-se de forma desigual conforme outros fatores, como classe social e/ou gênero. Não se constitui, portanto, um conceito unívoco. Contudo, ressaltam que assim como não se deve considerar apenas os critérios biológicos de idade para definir juventude, não se pode também levar em conta apenas os critérios sociais

Drogas e Cidadania - Episódio 02


Drogas e Cidadania - Episódio 01


Visita ao RIO


A aprovação de Dilma e o debate sobre a oportunidade da CPMI, por Elói Pietá


"Agiu bem nosso partido ao decidir desde o início pela CPMI, e nossos parlamentares ao assiná-la"


Com 64 % de ótimo e bom para o governo Dilma, colhido pelo Datafolha na sua última pesquisa, prossegue o debate entre nós a respeito da oportunidade da CPMI do caso Demóstenes e Cachoeira. Dizem alguns: “Se o governo está indo tão bem, por que bulir na política?”. A ponderação tática a favor deste argumento vai na linha de que a governabilidade na sociedade está sólida, mas a governabilidade no Congresso passa por tensões, e a CPMI agrava estas tensões.
A argumentação tática favorável à CPMI, por sua vez, considera que os principais atingidos são proeminentes membros da oposição, que tanto atacaram o governo. É hora de amplificar seu desgaste, de mostrar a falsidade dos ataques udenistas, de enfraquecer a blindagem com que setores da mídia protegem a oposição.
Mas, além destas e de outras argumentações táticas, estão em jogo duas questões estratégicas da mais alta importância. Uma, a oportunidade de debater na sociedade a necessária reforma do Estado brasileiro. Não é verdade, como órgãos da mídia tem tentado passar à opinião pública, que o foco da CPMI é apenas a relação do grupo de Cachoeira com políticos. Precisam também ser investigadas suas relações com o Ministério Público, com o Judiciário, com a Polícia. Outra importante questão estratégica é o debate de medidas para deter o avanço do crime organizado. Por isso devem constituir também foco da CPMI suas relações com empresas privadas, inclusive com alguns órgãos da mídia, como a revista Veja.
Por tais razões, são de grande importância a escolha dos membros da CPMI, as escolhas que eles vão fazer sobre os rumos da investigação, e a participação nestes debates dos setores organizados da sociedade.
O caso em foco vai além dos políticos. O exemplo mais marcante é o próprio Demóstenes Torres. Ele é senador por eleição, mas é membro do Ministério Público de Goiás por concurso, onde ocupou o mais alto posto. Há fortes suspeitas sobre as ações de Benedito Torres, atual procurador geral de Justiça de Goiás, e mais outro membro proeminente do MP daquele estado.  O Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP) já decidiu abrir investigação sobre eles. O mesmo CNMP deu um sinal recente de que está disposto a cortar na própria carne, como faz a Polícia Federal, e como deve fazer qualquer instituição que queira se preservar. Na semana que passou, puniu o procurador da República em São Paulo, Matheus Baraldi Magnani, por violar segredo de Justiça, a partir de uma representação que fiz contra o procurador. A pena foi de demissão, transformada em suspensão por 90 dias. Ele abusou de seu cargo para fazer política contra o PT. Leu errado um processo do Tribunal de Contas da União, não se deu o trabalho de verificar o que realmente tinha sido pago pela obra em questão, apressou-se a concluir um superfaturamento que não existiu. Por 9 votos a 2, o CNMP, no qual 7 membros são representantes do Ministério Público, tomou esta decisão inédita.
O Brasil está se tornando mais exigente. A alta popularidade da presidenta Dilma tem seu complemento também na convicção generalizada de que ela, além de conduzir com competência a economia, defende valores importantes para a sociedade. Entre eles, a ética nas instituições públicas, um valor forte na tradição do PT, pelo qual muitos de nós sofremos perseguição, ameaças, e alguns pagaram com a própria vida. Agiu bem nosso partido ao decidir desde o início pela CPMI, e nossos parlamentares ao assiná-la em peso. Será um ganho estratégico para aperfeiçoar a democracia brasileira, e tem tudo para ser uma vitória tática.
Elói Pietá é secretário geral nacional do PT

Sobre a corrupção


A instalação da CPI sobre a possível rede criminosa do contraventor Cachoeira abre uma extraordinária oportunidade de investigar a fundo, não só um caso concreto, mas os métodos, a cultura, a simbiose entre o sistema político, o Estado e as organizações criminosas politizadas

Ao contrário do que torcem - e em parte patrocinam significativos setores da mídia - não está se abrindo uma crise com a instalação da CPI sobre a possível rede criminosa do contraventor Cachoeira. Abre-se, sim, uma extraordinária oportunidade de investigar a fundo, não só um caso concreto, mas os métodos, a cultura, a simbiose (às vezes espontânea e no mais das vezes deliberada), entre o sistema político, o Estado e as organizações criminosas politizadas. Estas, como já está provado, não só interferem na pauta administrativa dos governos, mas também na pauta política dos partidos e podem mancomunar-se com órgãos de imprensa para transitar, ou interesses de grupos econômicos -criminosos ou não- ou interesses dos diferentes partidos aos quais estes órgão são simpáticos.

Para que esta oportunidade seja aproveitada é necessário, porém, que a CPI tenha a predominância de parlamentares que não tenham medo. Não tenham medo de que o seu passado seja revelado - um passado complicado fragilizaria o resultado da CPI -, não tenham medo de ser achincalhados pela imprensa, pois à medida que contrariarem os interesses que ela defende serão ridicularizados por algum motivo ou atacados na sua honradez. Não tenham medo, sobretudo, de encontrar algum resíduo de envolvimento seu, na teia de interesses, manipulada pelo grupo ora apontado como criminoso.

Uma parte da esquerda, na defensiva em função do cerco a que foi submetida principalmente no primeiro governo do Presidente Lula, convenceu-se que as denúncias feitas pela imprensa não passavam de montagens para nos desgastar. Ora, é razoável supor que muitas denúncias são forjadas (em função de brigas entre empreiteiras, por exemplo, ou para desmoralizar lideranças que são importantes para os governos), mas tomar as denúncias como produto de uma conspiração é errado. É deixar de lado que o estado brasileiro, historicamente cartorial, bacharelesco, barroco nos seus procedimentos e forjado sob o patrocínio do nosso liberalismo pouco republicano, tem um sistema político-eleitoral e partidário, totalmente estimulante aos desvios de conduta e às condutas que propiciam a corrupção.

O uso que a mídia faz dos eventos de corrupção, para tentar destruir o PT e a esquerda é, na verdade, um elemento da luta política por projetos diferentes de estado e de democracia. São diferentes concepções de republicanismo que estão em jogo, entre um republicanismo elitista e “globalizado” pelo capital financeiro e um republicanismo plebeu, participativo e aberto aos movimentos dos “de baixo”. Este, considera urgente a redução das desigualdades sociais e regionais, mesmo que isso se choque contra as receitas dos FMI e do Banco Central Europeu: um republicanismo do Consenso de Washington e um republicanismo do anti-Consenso de Washington, é o que está em jogo.

O fato, porém, da corrupção ser “usada” pela mídia, nas suas campanhas anti-esquerda, não quer dizer que ela não exista, inclusive no nosso meio. Então, o que se trata, não é de "amaciar" os fatos, mas de disputar o seu “uso” - o tratamento político dos fatos - para fortalecer uma das duas principais concepções de República que caracterizam o grande embate político nacional na atualidade. O “aceite” deste embate político tem um terreno fértil na CPI, em instalação, e a esquerda brasileira poderá agora, se tiver uma estratégia unitária adequada, amalgamar um conjunto de forças em torno dos seus propósitos republicanos e democráticos.

A atual CPI, ao que tudo indica, vai se debruçar sobre um sofisticado sistema duplamente criminoso: ele promove diretamente, de um lado, a apropriação de recursos públicos para fruição de grupos privados criminosos (através da corrupção) e, de outra parte, promove a deformação ainda maior do sistema político (através de criação de agendas políticas), para cooptar pessoas, vincular mandatos ao crime e, também, certamente, financiar campanhas eleitorais. Se de tudo que está sendo publicado 50% for verdadeiro trata-se de um patamar de organização superior da corrupção, que já adquire um estatuto diferenciado. Nele, o crime e a política não apenas interferem-se, reciprocamente, mas já compõem um todo único, com alto grau de organicidade e sofisticação.

O pior que pode acontecer é que a condução da CPI não permita investigações profundas e que seus membros, eventualmente, cortejem mais os holofotes do que a busca da verdade, ou que ocorram acordos para “flexibilizar” resultados, por realismo eleitoral. Nesta hipótese, ficarão fortalecidos aqueles que hoje estão empenhados em desgastar a esfera da política, que significa relativizar, cada vez mais, a força das instituições do estado e o sentido republicano da nossa democracia.

Este serviço, aliás, já está sendo feito pela oposição de direita ao governo Dilma, pois já conseguiram semear a informação que o governo “está preocupado” com os resultados da CPI. A oposição demo-tucana faz isso com objetivos muitos claros: para que todos esqueçam as raízes partidárias profundas, já visíveis, neste escândalo de repercussão mundial, mas que também é uma boa oportunidade de virada republicana na democracia brasileira.

(*) Tarso Genro é governador do Estado do Rio Grande do Sul pelo PT.

POLÍCIA NA USP

A charge é PERFEITA. Expressa o função social da polícia: reprimir os oprimidos!!! 

Comentários

A charge é PERFEITA. Expressa o função social da polícia: reprimir os oprimidos!!! 



A “metafísica” dos malucos-beleza


Compositor baiano é tema de documentário que enfrenta temas controversos como drogas, magia negra e tumultuadas relações familiares     17/04/2012 Maria do Rosário 

A estreia de Raul – o Início, o Fim e o Meio, quinto longa do festejado fotógrafo Walter Carvalho, se dá sob a expectativa de aumento dos minguados borderôs dos documentários brasileiros. 
O roqueiro baiano Raul Seixas, personagem
do documentário de Walter Carvalho
O filme, que tem potencial para bater muitas ficções nacionais, pretende -- como brinca seu realizador -- “mexer com a metafísica” dos malucos-beleza e tocar a sensibilidade dos espectadores comuns. Há indícios de que ele possa superar os bem-sucedidos Vinícius (270 mil espectadores), Uma Noite em 67 (80 mil) e A Música Segundo Tom Jobim (70 mil).             
O maior trunfo do documentário de Walter Carvalho é seu personagem, o roqueiro baiano Raul Seixas (1945- 1989) que deixou depois de intensa, mas breve vida, ampla legião de fãs e seguidores. Outro trunfo é a ótima recepção deRaul nos festivais, nos quais conquistou prêmios de júris populares, júris oficiais (melhor documentário no Festival do Rio e na Mostra Internacional de SP) e Prêmio da Crítica Cinematográfica (no Festival Aruanda, na Paraíba). São poucos os filmes que conseguem sensibilizar, ao mesmo tempo, a crítica, o público e os júris oficiais.              
Outro ponto forte do documentário está na participação de Paulo Coelho, parceiro musical de Raul e autor de obra literária das mais controvertidas. Depois de assistir ao filme, até o mais empedernido de seus críticos será compelido a admitir que a participação do autor de O Alquimista é ousada, corajosa e essencial à narrativa. Afinal, Paulo Coelho rompe com a “cordialidade” presente em centenas de testemunhos sobre a trajetória de artistas brasileiros. Estes, quando ganham cinebiografias (em vida ou póstumas), são transformados em santos. Além de não fugir de nenhum assunto, o letrista de Al Capone enfrenta todas as perguntas com franqueza, abordem o consumo de drogas, magia negra ou dificuldade de relacionamento entre parceiros.          
Outros pontos fortes do filme estão na riqueza das imagens de arquivo selecionadas e na busca de novas vozes para a construção do perfil do biografado. Nomes onipresentes, como Nelson Motta, foram convocados mais uma vez, mas o cineasta apostou também em figuras raras e capazes de arejar os “filmusicais” brasileiros (caso de Bráulio Tavares).   
No campo das imagens, graças aos esforços dos produtores (Alain Fresnot e Denis Feijão) e do craque da prospecção de arquivos Antônio Venâncio, é possível ver trechos de Balada Sangrenta (com Elvis Presley fazendo jus, mais que nunca, ao apelido de Elvis Pélvis) e deSem Destino, o filme de Dennis Hopper que marcou profundamente a década de 1970. No terreno das imagens brasileiras, há também ótimas novidades. As mais incríveis são registros da adolescência de Raul em Salvador.                
Por fim, há que destacar os esforços da equipe para equacionar interesses e brigas dos herdeiros de Raul (cinco ex-mulheres e três filhas estadunidenses ou brasileiras). Ao conseguir acessar todas as viúvas e filhas (mesmo que uma delas, nascida nos EUA e muito conservadora, nada queira dizer sobre o pai biológico), o filme apresenta rico e matizado retrato do cantor. Raul viveu de influências da música norte-americana e brasileira e, no plano sentimental, agiu da mesma forma. Casou-se com moças anglo-saxãs e também com as daqui.           
Asa Branca
Raul – o Início, o Fim e o Meio começa com o compositor paraibano, Bráulio Tavares (conterrâneo de Walter Carvalho) declamando o poema Uivo, de Allen Ginsberg, e com evocações da geração beat imantadas por imagens dos motoqueiros de Easy Rider (Sem Destino). Em seguida, vemos a imagem de motoqueiro-fã-e-sósia de Raul, sob os acordes deAsa Branca, clássico de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira.               
Nordestino como Raul, Walter Carvalho faz de seu filme uma soma permanente de influências anglo-saxãs e brasileiras. Em moldes semelhantes aos de Let Me Sing, música que revelou o compositor e cantor baiano num festival de MPB e que somava rock e baião. 
Walter justifica a significativa participação do conterrâneo Bráulio Tavares no filme: “ele é poeta, músico, compositor, escritor, jornalista e filósofo. Somos amigos desde quando morávamos na Paraíba. Falar de música sem consultar Bráulio seria um erro sem par”. E por quê? “Por muitos motivos, inclusive por sua capacidade de síntese e clareza ao formular seus pensamentos”.                
Há duas outras fortes razões: “Bráulio é da minha geração e como Raul foi roqueiro e fez parte da banda de rock Os Sebomatos, em Campina Grande, na mesma época em que Raulzito atuava, em Salvador, com Os Panteras”. E “Bráulio foi cabeludo, roqueiro e fã de Elvis Presley e como quase todos da nossa geração assistiu ao filme King Creole (Balada Sangrenta/1958) repetidas vezes só para ver o desempenho do cantor americano no filme de Michael Curtiz”.      
Magia negra
A entrevista com Paulo Coelho, o mais poderoso trunfo do filme, nasceu cercada de dificuldades. Walter lembra que fez inúmeros contatos com os agentes do escritor para marcar o encontro. A agenda complicada e os muitos compromissos internacionais de Paulo Coelho geraram várias respostas negativas.        
O cineasta sabia que, sem o depoimento do principal parceiro de Raul Seixas, o filme sofreria “perda muito significativa”. A situação mudou quando, “um dia, em sua casa na Suíça, Paulo Coelho assistiu, na TV, a retrospecto da vida do Raul Seixas, realizado por ocasião dos 20 anos de sua morte. Ao deparar- se com depoimento de Sylvio Passos no qual ele se referia a mim como um cara sério que estava fazendo um filme também sério sobre Raul, as coisas começaram a mudar”. Paulo Coelho, amigo de Sylvio desde os tempos da parceria com Raul Seixas, decidiu que falaria com Walter Carvalho.        
“Marcamos data” – conta o cineasta – “e fomos ao encontro dele em sua casa, na Suíça. Ele nos recebeu com generosidade e comentou que pesara também a recomendação vinda do compositor Roberto Menescal”. Acompanhado do assistente Leonardo Gudel, Walter resolveu pesquisar nas páginas dos livros do escritor-compositor as perguntas relacionadas ao período em que, juntos, eles produziram mais de 30 canções, entre elas os megassucessos Gita,Sociedade AlternativaMedo da ChuvaTente Outra VezComo Vovó Já Dizia (apelidada de Óculos Escuros) e Eu Nasci Há Dez Mil Anos Atrás.  
No acerto com o cineasta, Paulo Coelho avisou que se submeteria ao ritual de perguntas por exatos 45 minutos. “Chegamos na hora marcada”, relembra Walter. “Fomos recebidos pela governanta, que pediu que esperássemos, pois o escritor estava se exercitando nas montanhas”. Walter, fotógrafo experiente de quase uma centena de curtas e longas, escolheu o lugar ideal para ambientar a conversa, enquanto seu filho Lula Carvalho (fotógrafo dos doisTropa de Elite) preparava a luz e a câmera, e Evandro Lima cuidava da equalização dos microfones”.           
Paulo Coelho chegou acompanhado da mulher Christina Oiticica. “No início da primeira pergunta” – conta o cineasta – “ele fez alusão aos 45 minutos pré-estabelecidos. Lembrei que esse tempo seria pouco para rememorar suas parcerias com Raul. O papo fluiu de tal forma, que nossa conversa durou exatamente 2 horas e 15 minutos”.       
Além de falar sem travas sobre os temas mais espinhosos, Paulo Coelho proporcionou ao filme uma de suas sequências mais hilariantes e intrigantes. Walter Carvalho a rememora: “a conversa se enriqueceu com a inesperada presença de uma mosca que surgiu ali mesmo, na asséptica Suíça”. Para “estranheza do escritor que ponderou diante da câmera não haver moscas em Génève, que aquilo só podia ser a presença inusitada do Raul naquele momento mágico da nossa conversa”.        
O autor de Diário de Um Mago não esconde os tempos em que ele e outros discípulos brasileiros do ocultista britânico Aleister Crowley (1875- 1947) se envolveram com magia negra/ satanismo. E o filme cresce ao explorar, com astúcia, a presença do ocultista Euclides Lacerda (que morreria algum tempo depois das filmagens) e seu ajudante fiel, Tonino Buda (que hoje vive em Juiz de Fora). Numa caverna, eles asseguram que Paulo Coelho continua sendo “integrante” da sociedade satânica à qual se filiou décadas atrás. De sua mansão na Suíça, Coelho diz que aquilo é passado. Euclides, sempre assistido pelo fiel Buda, discorda. O efeito cômico das ironias de Paulo Coelho diverte a plateia.     
Drogas e família
No terreno das drogas, tema fundamental na história de Raul Seixas, o filme também avança bastante se comparado aos documentários já feitos sobre personalidades culturais brasileiras. Paulo Coelho não esconde nada. Diz que ele e Raul consumiram todas as drogas disponíveis no período. E que eram muitas. O letrista as enumera, sem se preocupar se está chocando seu público contemporâneo, tão diferente dos roqueiros, hippies e malucos-beleza da década de 1970.           
Os efeitos devastadores das drogas sobre o organismo de Raul (inclusive seu vício em cheirar éter, mesmo já bastante doente) ganham relevo (sem nenhum sensacionalismo) na narrativa. Na fase final de sua vida, já longe das ex-mulheres, das filhas e da mãe (que morava na Bahia), Raul encontrou na empregada da família, Neusa, uma companheira fiel (uma das ex-esposas do compositor chega a insinuar que a doméstica era apaixonada pelo frágil patrão).         
Outro companheiro fiel de Raul Seixas foi o roqueiro baiano Marcelo Nova (ex-Camisa de Vênus). Fã assumido do cantor, ele produziu temporada de shows protagonizados pelos dois em grandes palcos brasileiros. O show derradeiro, no Gran Circo Lar, na Esplanada dos Ministérios, em Brasília, é visto no filme em imagens tocantes. Muito doente e delibilitado, Raul consumia suas últimas energias para cantar, sem a potência de outrora, alguns de seus maiores sucessos.             
O criador do hit Ouro de Tolo perderia a vida em 1989, com apenas 44 anos, para entrar na história da música popular brasileira, deixando uma legião de inconsoláveis fãs. Alguns fanáticos como Pena Seixas, que se veste como se fosse um Raul reencarnado e que batizou o filho com o nome do ídolo. Tamanha devoção custou-lhe o fim do casamento. Pai e filho seguem juntos, fieis à memória e à obra de Raul.

CULTURA NO CINEMA


XINGU - VEJA TRAILER



Utopias e dramas do Xingu


O filme “Xingu”, de Cao Hamburger (O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias), chega às telas em um momento de retrocesso nas políticas indígenas. No mês em que é celebrado o dia do índio, pouco há para se comemorar. O Parque Indígena, criado pelos irmãos Villas Boas, cenário do filme, vive às voltas com diferentes ameaças, e em outras aldeias espalhadas pelo país, o clima é de medo, provocado por invasões do garimpo, pela ameaça constante do narcotráfico e pela violenta disputa pelas terras com fazendeiros fortemente armados.
Elenco de "Xingu" na pré-estreia do filme, em
Sâo Paulo - Foto: Paula Nogueira
O avanço da política indigenista, expresso na saga dos irmãos Villas Boas, e bem retratado no filme, corre sério risco de ir por terra. No caso especifico do Parque Indígena do Xingu, área de 2, 6 milhões de hectares no Mato Grosso, uma nova ‘transamazônica’ tira o sono de indígenas. A construção da usina hidrelétrica Belo Monte, enfiada goela abaixo dos povos xinguanos, figura hoje ao lado de outros problemas mais antigos – que não param de crescer – como o avanço de território desmatado e das culturas de grão e da pecuária.
“Estamos correndo o risco de andar para trás não só nas políticas indígenas, mas também nas questões ambientais”, afirmou o diretor Cao Hamburger, pouco antes da exibição de Xingu para a imprensa e convidados, em São Paulo. “Se a sociedade não se tocar, vamos ficar pior que caranguejo”, ironiza o diretor. Ele acredita que o filme pode iluminar um pouco a questão nesse sentido. “Contamos uma história que se passou há cinquenta anos, mas que é muito atual e urgente.”
O filme faz um justo resgate da historia de três brasileiros de primeira grandeza que decidirem botar o pé na estrada, inicialmente sem saber ao certo pra onde, nem por que. A viagem em questão é a Expedição Roncador-Xingu que, em 1943, partiu de São Paulo rumo a regiões inóspitas do Brasil Central. Seus nomes: Orlando, Cláudio e Leonardo Villas Bôas. Impulsionados, em princípio, pelo desejo de aventuras, descortinaram o misterioso mundo dos povos indígenas. Um mundo que, como poucos, eles compreenderam e ajudaram a preservar. E ao qual, apaixonados, dedicaram – de corpo e alma – suas vidas.
Abraço da morte
“É uma joia pública preservada”, defende o ator Caio Blat, que vive no longa o caçula, Leonardo Villas Boas. “Eles previram o avanço da destruição que ameaçaria os povos da região, chamavam isso de ‘abraço da morte’, o que, aliás, já está acontecendo, todo o entorno do parque já está devastado”, ressalta o ator. Ele também acredita que o filme chega numa boa hora. “Vamos levantar esse debate, levar esse tema para as casas das pessoas, escolas, e tentar reverter essa situação com a participação da sociedade”. Para o ator, quadro é dramática. “O parque está no seu limite, desmatamentos chegaram perto demais e impactos da usina Belo Monte não estão claros.” O ator aproveita pra chamar a atenção sobre questões ambientais. “Código florestal que está sendo aprovado é vergonhoso.”
A atriz Maria Flor, que vive o papel de Marina, a viúva de Orlando Villas Boas, e que passou vários dias no parque indígena, conta ter se impressionado ao ver como os índios ainda continuam vivendo dentro da própria cultura, mas vê com ressalvas a ideia de preservação cultural. “É inevitável nossa cultura entrar ali, e essa mistura é muito interessante, eles querem isso, ter ipod, máquina fotográfica, é legítimo, e o bacana é que ao mesmo tempo permanecem ligados às tradições.”
“Falta outro ‘Orlando’ pra botar ordem na casa”
Verdadeira celebridade na noite da pré-estreia do filme em São Paulo, Marina elogiou o olhar ‘sensível e competente’ do diretor Cao Hamburger. Sobre a atual situação de fragilidade de aldeias, ela lamenta. “Falta o interesse que já existiu na questão indígena”, em outras palavras, a viúva quis dizer que falta outro ‘Orlando’ pra botar ordem na casa, ou na aldeia.
Também marcou presença na pré-estreia de Xingu, ao lado da sempre bela, Bruna Lombardi, o eterno Aritana da TV, o ator Carlos Alberto Riccelli, que teve a ajuda dos sertanistas Orlando e Claudio Villas Boas para a composição de seu personagem, o líder indígena do Alto Xingu, Aritana Yawalapiti, em 1978, na saudosa TV Tupi. “Eles foram excelentes professores, me ensinaram um pouco dos costumes e do idioma”, diz o ator, que vive hoje em São Paulo e em Miami. Bruna acrescenta um detalhe importante. “Para nós tem um significado todo especial, foi no Xingu que nos conhecemos.”
O ator que acabava de chegar do Fórum de Sustentabilidade de Manaus, também ergueu a bandeira ambiental. Ele citou uma petição, da ONG Greenpeace que propõe  ‘desmatamento zero’. “Pra transformar isso em lei é preciso 1 milhão e meio de assinaturas.” Ele afirma que a exemplo do que aconteceu com a Lei da Ficha Limpa’, que teve expressiva participação da sociedade, essa proposta pode fazer mais do que a atual revisão do código florestal, onde, segundo ele, ‘todo mundo deu palpite, mexeu onde não precisava e tudo para salvar quem deveria ser punido.”
Para o cineasta Fernando Meirelles (um dos diretores da O2 Filmes, produtora de Xingu), o longa, dirigido por Hamburger, questiona o que é progresso. Ele se refere a uma cena em que Felipe Camargo, na pele de Orlando, arremata o assunto afirmando que “progresso não interessa nem pra gente.” Questionado sobre porque não é mencionada a construção da Belo Monte, o diretor se defende dizendo que as imagens da Transamazônica no final do filme já deixam implícita a questão. Mas afirma ser contra a obra, imposta sem os devidos estudos de impacto. “Serão dezessete usinas ao longo do rio para produzir uma energia elétrica que não precisamos, para fazer alumínio para a China”, conclui.
Histórias de pajés
Certamente, o mais fantástico nas aventuras de Orlando Villas Boas foi seu encontro com o fascinante universo da cultura indígena. Desta mesma fonte, ele resgatou outro tesouro, as histórias de poderosos pajés, autores de feitos mirabolantes. A enfermeira Marina Villas Bôas, esposa do sertanista, que viveu e trabalhou com ele durante 12 anos no Xingu, conhece uma porção delas. Muitas, porém, trazem pitadas de um recheio fantástico, que ela própria reconhece ‘precisar muita fé para acreditar’. O que não impede o fascínio pelo universo indígena, motivo que a fez abandonar a vida segura em São Paulo e seguir rumo ao Xingu, onde viveu e trabalhou durante doze anos. Peço e ela concorda em contar um desses ‘causos’ mirabolantes.
“Um índio foi pescar com seus dois filhos. Duas crianças – uma de seis e a outra de oito ou nove anos. O pai foi até a outra margem do rio, mas advertiu aos pequenos para que o esperassem ali onde estavam. Quando retornou já não estavam mais lá. O índio procurou, mas não os encontrou. À noite, desesperado, voltou à aldeia. No dia seguinte, várias equipes de índios saíram à procura das crianças, sem sucesso. Orlando chamou então o pajé, que garantiu que as crianças estavam bem e que voltariam, mesmo depois de terem passado vários dias, com chuvas e tempestades. Quase duas semanas após o sumiço dos garotos, o pajé fez uma cerimônia e depois afirmou que no dia seguinte, ao meio-dia, eles retornariam à aldeia. No horário previsto, pediu que todos ficassem em suas casas enquanto ele faria sua reza. Em seguida, como anunciado, as crianças voltaram. Não tem explicação”, conclui Marina.


Morre Millôr Fernandes, aos 88, um dos fundadores do jornal "O Pasquim", reconhecido por seu papel de oposição ao regime militar


Vídeo do Mano Chao em apoio à luta contra a mineração, em defesa da água e da biodiversidade das sementes


O Dia que durou 21 anos - Episódio 2


Segundo episódio do documentário "O Dia que Durou 21 anos, que apresenta "os bastidores da participação do governo dos Estados Unidos no golpe militar de 1964 que durou até 1985 e instaurou a ditadura no Brasil". Uma coprodução da TV Brasil com a Pequi Filmes, com direção de Camilo Tavares.
24 04 2012
25:43


O Dia que Durou 21 Anos - Episódio 1 - A Conspiração




No primeiro episódio, as ações do embaixador dos Estados Unidos, Lincoln Gordon, ainda no governo Kennedy, são expostas. O discurso do presidente João Goulart, pregando reformas sociais, é interpretado como uma ameaça e provocação pelos militares. Nos quartéis temia-se uma movimentação de esquerda e a adoção do comunismo, que poderia se espalhar por outros países latinos. Entrevistas e reportagens da CBS são reproduzidas, bem como diálogos entre Gordon e Kennedy.
O documentário expõe a efervescência da sociedade brasileira naquele período. Para evitar que Goulart chegasse forte às eleições de 1965, foi criado o IBAD (Instituto Brasileiro de Ação Democrática), que teria dado cobertura às ações dos Estudos Unidos para derrubar João Goulart.

Uma CPI para punir os corruptores


Uma CPI para punir os corruptores

É hora de mostrar a todo o povo quais interesses a revista Veja defende


Desde a fundação do Estado republicano com a revolução francesa, sempre houve setores da classe dominante que se utilizam dos cargos públicos, das influências nos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário para se locupletarem e acumularem com dinheiro público. Na sociologia foram classificados como a fração lumpen-burguesa, que preferia surrupiar parcela da mais-valia recolhida pelo Estado, e de mais fácil acesso, a dedicar-se a investimentos na produção e extrair diretamente a mais-valia da exploração do trabalho da classe operária.          
Aqui no Brasil não foi diferente. Desde a República velha, setores da burguesia sempre se locupletaram com recursos públicos, de forma legal e ilegal. Porém, essa mesma burguesia, muito esperta, nas últimas décadas se apropriou do discurso ideológico da luta contra a corrupção. Como se a corrupção fosse um mal genérico, sem nome, classe, ou pior, fossem setores da classe trabalhadora que tirassem proveito de governos progressistas. O símbolo maior dessa hipocrisia foi o governador Lacerda, do Rio de Janeiro, na década de 1950 e 1960 e seu partido União Democrática Nacional (UDN). No fundo, essa forma de transformar a denúncia da corrupção apenas como uma questão moral, não passa de uma tática da classe dominante para desviar o debate sobre a verdadeira natureza do Estado brasileiro, que por si só, na sua lógica de funcionar proporciona a parcelas da classe dominante que se apropriem dos recursos públicos. Às vezes de forma legal e outras vezes ilegalmente. Nos casos ilegais se chama de corrupção, e aí seus beneficiários precisam construir uma ampla rede de “proteção pública” aos seus atos, que em geral, envolve juristas e advogados famosos, juízes, desembargadores, senadores, deputados, delegados de polícia e, sobretudo, os proprietários dos meios de comunicação de massa. Basta lembrar como a televisão e a Vejatransformaram o Collor de Mello em caçador de marajás, Demóstenes no senador vestal, Yeda Crusius a gestora da RBS e tantos outros que foram desmascarados pela realidade.           
Nos anos recentes, depois da vitória eleitoral do presidente Lula, os setores da burguesia derrotados se utilizam desse expediente: denuncismo e tentativa de centrar o debate no combate à corrupção, como uma forma de engessar o governo, deixá-lo inerte, e impedir que as verdadeiras demandas da classe trabalhadora e a questão de um projeto para o país seja o centro do debate).            
Assim surgiu o “mensalão” no governo Lula. Amplificado ao extremo, que quase levou a um processo de impeachment. Agora, veio à tona que até o sinistro bicheiro Cachoeira estava por trás dessa manipulação, junto com a sua Veja.       
No governo Dilma, esses mesmos setores da burguesia - derrotados no seu projeto de subordinação ao neoliberalismo e aos interesses imperiais - se agarrou na imprensa e no Judiciário, para deixar o governo refém de seus interesses. Com isso já derrubaram sete ministros. Independente da natureza ideológica dos ministros, do seu não compromisso popular, de que tenhamos até gostado das mudanças ou de culpas reais, o fato é que não houve nenhum processo ou algo concreto comprovado. Se os interesses da imprensa fossem democráticos e os ministros tivessem caído culpados pelo desvio de recursos públicos, então eles deveriam estar na cadeia! Mas como diz o ditado popular, “o diabo faz panela mas esquece da tampa”.                 
Agora veio à tona a rede de corrupção montada entre uma quadrilha de jogos ilícitos, empreiteiras, senadores, desembargadores, governadores e a imprensa de direita, em especial a revista Veja, com quem o contraventor Cachoeira discutia com o chefe da sucursal de Brasília as pautas, as denúncias. Como se eles tivessem o direito de decidir a quem iriam derrubar ou a quem condenar perante a opinião pública.                
Felizmente os parlamentares tiveram um pouco de coragem e instalaram a CPMI para investigar esses fatos. A panela está destampada. Agora será necessário revolver toda a podridão que tem dentro dela.                
Pela primeira vez as forças populares, representadas por alguns congressistas, terão a oportunidade de investigar e denunciar os corruptores: as empresas e a grande mídia que as acobertam. É hora de mostrar a todo o povo quais interesses a revista Veja defende. Seus bicheiros e parlamentares. É hora do povo saber as redes que se montam dentro do estado brasileiro para que meia dúzia de lumpen-burgueses se locupletem e ainda usem a mascara da legalidade e da defesa dos interesses públicos.                   
Essa CPMI precisa analisar com detalhes tudo e de forma rápida, antes que a ratazana esconda o queijo e seus comedores.               
Mas não basta torcer pela coragem de alguns parlamentares. Será necessário que os movimentos sociais, o movimento estudantil, da juventude, todas as forças populares possam ir às ruas pressionar. Exigir a investigação e punição de todos os envolvidos, sejam governadores, empreiteiros, senadores, donos da Veja etc.                 
A Globo já começou de novo a campanha do Brasil limpo, da corrupção genérica e de falsos movimentos de jovens burgueses, que são amplificados na televisão.                      
Portanto, estamos diante de mais um capítulo da luta de classes, travado no campo da ideologia, no campo das ideias e da gestão do Estado. E a burguesia já se deu conta que pode sofrer uma grande derrota ideológica.