quinta-feira, 17 de maio de 2012

As Forças Armadas e a Comissão Nacional da Verdade

As Forças Armadas e a Comissão Nacional da Verdade

Os militares da reserva, protagonistas dos crimes da ditadura civil-militar e que fazem uma guerra suja contra a Comissão da Verdade, não falam em nome das forças armadas brasileira

A história demonstra que cada geração une o passado e o presente de forma original. Os elementos e as contradições do presente são imprescindíveis para a construção de novos processos históricos. No entanto, ao mesmo tempo em que os elementos do presente são imprescindíveis, também são insuficientes, sendo a síntese dialética das contradições do passado e do presente fundamentais para a construção das mudanças sociais.

O historiador francês Jean Chesneaux afirma que os povos, particularmente os subalternos do mundo, deviam “libertar o passado”. Atualmente, viabilizar concretamente a Comissão Nacional da Verdade no Brasil significa contribuir para libertar o passado e avançar na construção de uma sociedade comprometida com a memória, com a verdade e com a justiça. O apoio e a solidariedade de diversos setores da sociedade com as recentes ações do Levante Popular da Juventude em defesa da Comissão da Verdade indica que está em construção um clima político favorável para que o governo brasileiro avance na concretização dessa comissão, proporcionando-lhe plenas condições de trabalho.

É um processo complexo. Precisamos saber de fato quem é o nosso inimigo. Conhecer suas táticas e armadilhas conjunturais. É fundamental nesse momento fazer algumas reflexões para a esquerda e para a sociedade brasileira. Os militares da reserva, protagonistas dos crimes da ditadura civil-militar e que fazem uma guerra suja contra a Comissão da Verdade, não falam em nome das forças armadas brasileiras. Encurralados e isolados, a tática dos milicos, nesse momento, passa por potencializar o sentimento corporativista das forças armadas. Aliás, os militares da reserva já foram, recentemente, desautorizados de falar em nome das forças armadas brasileiras.

Também é importante ressaltar que as forças armadas não são inimigas do povo brasileiro. Suas posturas diante dos fatos históricos são produto das contradições de seu tempo. Portanto, as forças armadas não são um corpo homogêneo e sem contradições. Quem disse que os jovens oficiais concordam com os atos de perseguição e de tortura praticados durante a ditadura militar?

Aliás, em diversos momentos da História brasileira os militares tiveram posturas identificadas com os interesses do povo brasileiro. Exemplo disso foi a postura política do exército brasileiro no processo da abolição da escravatura, colocando-se contra a continuidade da escravidão no Brasil logo após a guerra do Paraguai. Esse posicionamento do exército minou as bases da Monarquia, abrindo espaço para a proclamação da República. A Coluna Prestes é produto das contradições das forças armadas brasileiras e do sonho da jovem oficialidade em mudar o Brasil. Importante lembrar também que, para Juscelino Kubitschek assumir a Presidência da República, o General Lott teve que intervir para garantir o cumprimento da constituição. As forças armadas com todas as suas contradições também tiveram papel importante na campanha “o petróleo é nosso”, na garantia da posse de João Goulart. O objetivo ao ressaltarmos essa postura das forças armadas nesses fatos históricos (muitos deles arranjos políticos pelo alto, sem protagonismo popular) não é reproduzir uma abordagem positivista da história, mas sim evitar posicionamentos cristalizados sobre o papel das forças armadas na sociedade.

Claro que as forças armadas também têm no seu histórico a repressão violenta ao movimento popular de Canudos, a ação golpista de 1937, o golpe militar de 1964, dentre outros. Aliás, as mudanças estruturais de cunho popular no Brasil não se darão através de quarteladas. Sabemos que a solução está na mobilização popular de milhões. Ressaltamos, portanto, a importância de dialogar com os setores das forças armadas, particularmente a jovem oficialidade, comprometidos com seu papel constitucional de assegurar as instituições democráticas e com o desenvolvimento de uma nação livre e soberana.

As contradições da realidade podem levar o povo brasileiro a prestar contas com um processo de redemocratização incompleto e marcado pela predominância de arranjos políticos construídos pelo alto. O protagonismo popular do período da redemocratização sofreu um refluxo na década de 1990 e não foi suficiente para efetivarmos, na prática, diversas reivindicações de natureza democrática, nacional e popular. Uma nova geração de lutadores e lutadoras do povo certamente prestará contas a esse “desenvolvimento capitalista deformado e perverso” no dizer de Florestan Fernandes.

Nesse xadrez que começa a se formar, percebemos posturas como o constrangimento, a conivência e a oposição aberta de setores da classe dominante brasileira à Comissão da Verdade. Isso porque existe um temor de que a Comissão da Verdade seja a ponta do iceberg. Um temor de que a sociedade brasileira, particularmente a juventude, se mobilize para completar a redemocratização inacabada. Um temor de que o povo brasileiro resolva traçar os destinos da nação.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

''O jornalismo pode ser transformador, pode embalar a utopia''.


"Essa é a utopia da qual o jornalismo é capaz. Levar o leitor espectador a pensar. Isso é praticamente uma revolução”, assegura a jornalista Elaine Tavares
 27/04/2012
“Temos um mundo a construir”. Portanto, “ousem ouvir as vozes hereges, ousem criar grupos de estudo, ousem navegar nos livros velhos escondidos nas prateleiras”. É com esse conselho, que a jornalista Elaine Tavares (foto abaixo) incentiva os estudantes de Comunicação e colegas de profissão a compreenderem “que há mais coisas no jornalismo do que aquilo que é repetido nas salas de aula”.
Com uma longa experiência em diversos veículos de comunicação, Elaine enfatiza que os jornalistas devem caminhar em busca da boa utopia e isso significa ultrapassar as barreiras de manipulação à direita e à esquerda, e praticar jornalismo “como uma forma de conhecimento”. Autora do livro recém lançado, Em busca da Utopia – os caminhos da reportagem no Brasil, dos anos 50 aos anos 90 (Florianópolis: Ed. Instituto de Estudos Latinoamericano-Americanos, 2012), ela ressalta que a prática jornalística pode levar o “leitor/espectador a pensar, a se desalojar do mundo tal qual ele é – injusto, opressor, excludente”. Nesse sentido, assegura: “O jornalismo pode ser transformador, pode embalar a utopia”.
Para que os jornalistas não deixem morrer as suas utopias e as levem adiante na prática do dia a dia, os cursos de jornalismo “precisam ensinar a pensar”, pois o “o jornalista que pensa tem mais chance de caminhar na direção da utopia”, assinala à IHU On-Line. Na entrevista a seguir, concedida por e-mail, Elaine reflete sobre a prática jornalística e o desafio das universidades de formarem profissionais críticos. “Um aluno do jornalismo deveria ter uma sólida formação humanística, política e econômica, deveria entender os grandes problemas estruturais de seu país e de seu continente”, diz. Para isso, assegura, “primeiro há que mudar a universidade, subverter esse ensino que domestica. Há que se produzir um pensamento autóctone sobre o jornalismo, conhecer nossos pensadores do passado, avançar com eles, superá-los. Há que conhecer a história do nosso povo, há que estudar filosofia, reaprender a pensar. Depois disso, há que voltar a narrar a vida com um texto que descreve, que narra, que contextualiza”.
Elaine Tavares é jornalista do Instituto de Estudos Latino-Americanos – IELA, da Universidade Federal de Santa Catarina e escreve no blog Palavras Insurgentes, no endereço eletrônicohttp://eteia.blogspot.com.br/.
Confira a entrevista.

IHU On-Line – O que caracteriza o jornalismo utópico?
Elaine Tavares – Na verdade, não há um jornalismo utópico. O que busquei foi ver se, como e onde aparecia a utopia no jornalismo (que era e é o meu fazer cotidiano) já que esse desejo de um lá-na-frente melhor parece ser algo que faz parte da consciência humana. E por que eu decidi fazer essa busca? Porque naqueles dias do final dos anos 1990 havia uma espécie de histeria na mídia e nas esferas intelectuais sobre o fim de todas as utopias. Falava-se do fim da história, fim do socialismo, fim das grandes narrativas. Eu não acreditava nisso, porque via a utopia aparecer explícita no Equador, onde os indígenas ocupavam as igrejas e exigiam seus direitos, e principalmente no México, onde os novos zapatistas faziam um enfrentamento armado ao Estado, usando a internet como um elemento de potencialização dessa resistência. Então, se a realidade me dizia que a utopia vivia, não dava para crer no que apregoavam alguns filósofos, notadamente europeus. Então fui buscar na narrativa jornalística, o sinal dessa utopia. E encontrei. A vida real, quando narrada, escancara a utopia humana. E também percebi que as utopias podiam estar claudicando lá na Europa, mas não aqui na América Latina. Ao contrário, aqui vivíamos um alvorecer de novas e belas utopias.

Como a utopia aparece nas reportagens brasileiras produzidas entre os anos de 1950 e 1990, nas revistas O Cruzeiro, Realidade, Veja e Época?
Há um teórico brasileiro chamado Teixeira Coelho que fez um trabalho muito interessante sobre a utopia. E ele vai além da ideia de que a utopia é só um lá-na-frente esperado. Ele divide a utopia em duas vias: a eutopia, que seria a construção de um lá-na-frente bom, e a distopia, que seria um lá-na-frente ruim (ele coloca nesse patamar o nazismo, por exemplo, que era o sonho de um homem, e acabou sendo o de parte de uma nação). Então, com base na ideia de Ernest Bloch – que fala da utopia como a negação de um real que não é bom e a busca de um lá-na-frente possível – junto da proposta de Teixeira Coelho, fui analisar as revistas. O que descobri foi que a utopia aparece em todas essas revistas, mesmo na Veja e na Época – que fazem um péssimo jornalismo. E como? Na Cruzeiro, a utopia assoma na forma de narrar. É quando a reportagem começa a se constituir como texto descritivo, interpretativo, para além da opinião. Esse tipo de narrativa consegue também trazer para o texto a utopia da época, anos 1960, tempos de grandes mudanças culturais e políticas, nova temperatura no mundo. Na revista Realidade a utopia se mostra plena, com a reportagem – texto e foto – sendo capaz de expressar o espírito da época, que era de revoluções. Mesmo sendo feita dentro de um regime militar, como o vivido no Brasil, a Realidade trazia temas instigantes e reportagens descritivas que pareciam roteiros cinematográficos, tamanha a sua capacidade de transportar o leitor para dentro da história. Ali, a forma de narrar impressionista chegava ao seu auge. Expunha as chagas abertas da vida brasileira em histórias reais e o jornalismo adquiria o sentido da arte. A revista Veja atravessa os anos 1980 e 1990 como um fenômeno editorial e, por incrível que pareça, também apresenta a marca da utopia, nesse caso como distopia (lugar ruim). Busca, na nova narrativa hegemonizada e impessoal, sem marca de autor, consolidar uma sociedade submetida à indústria cultural. E aí, o jornalismo deixa de ser uma narrativa impressionista, descritiva e interpretativa e passa a ser uma espécie de “gosma“, sem forma e sem sabor. Ainda assim, mesmo nela, de vez em quando aparece um texto de autor, no qual o jornalista ousa narrar a vida mesma, e aí aparece de novo a utopia como eutopia. É muito bonito de ver. Por fim, a Época, que aparece para “arrebentar“ nos anos 1990, com seus drops informativos e infográficos, chega ao ápice da distopia, com o jornalismo perdendo todas as suas características como narrativa da vida. Os textos são horríveis, retalhos de vários olhos, sem identidade. A maioria das reportagens são autopropaganda da Globo, ou seja, a revista servindo como espaço para vender ainda mais a programação da TV. E ali, no auge da gosma, um ou outro jornalista-autor também aparece e faz aparecer a utopia como um raio de luz. 

Sob quais influências se construiu o pensamento teórico acerca do jornalismo e da reportagem no Brasil?
Essa foi outra curiosidade minha. Durante meu tempo na faculdade era comum a gente estudar autores estrangeiros, falar do jornalismo que se fazia nos Estados Unidos e muito pouco se falava dos autores brasileiros. Então fui procurar quem tinha sido o “guru“ de cada época. Foi um trabalho muito legal porque acabei encontrando autores incríveis, com pensamentos muito originais sobre o jornalismo, como, por exemplo, Celso Kelly, que chegou a escrever uma teoria estética para o jornalismo, e Antônio Olinto, que é uma preciosidade. Ele diz: o jornalista tem que ser como o artista, que mantem intacta em si a capacidade de sentir e transmitir sentimentos estranhamente verdadeiros. Não é bárbaro? Agora, é claro, o jornalismo brasileiro pós-1950 se constituiu hegemonicamente como cópia do jornalismo estadunidense. Os autores mais originais ficaram à margem e não é sem razão que são praticamente desconhecidos nos cursos de jornalismo hoje. Por exemplo, o chamado “novo jornalismo“, incensado como um jeito de narrar nascido nos EUA, já era uma prática aqui no Brasil bem antes de surgir por lá. Pode-se ver esses textos intimistas e impressionistas na revista O Cruzeiro. São as coisas do nosso colonialismo mental. Infelizmente o jornalismo que se pratica no Brasil – na maioria dos veículos – segue sendo uma cópia mal aparada do jornalismo estadunidense. Uma pena. Temos uma linda história e bons teóricos, como é o caso do Adelmo Genro, que, a meu ver, é o que há de mais original na discussão do fazer jornalístico. Um autor para ser estudado à exaustão.

No caso específico da revista Veja, que mudanças editoriais e utópicas percebe ao longo do tempo?
A Veja é um caso de autofagia (de uma empresa) em nome de um modelo de mundo. Explico. Ela nasce nos anos 1970 dentro da mesma editora que fazia a Realidade, que era uma beleza de revista, com reportagens incríveis. E ela vem para implantar no Brasil um estilo de jornalismo que assomava nos Estados Unidos. Essa coisa insossa de informação sem contexto, e que não é uma ação sem sentido. Ela é parte de um modo de ser e estar no mundo. Escrever como se estivesse informando, mas sem na verdade informar. A Veja entrou no mercado e matou a Realidade, que era o jornalismo de profundidade, que levava ao pensamento, ao questionamento. A mesma empresa mata uma revista boa para que a revista ruim pudesse começar a atuar como a usina ideológica de um modelo que se queria para o Brasil. Foi um projeto utópico (distópico) da classe dominante. Trazer a “modernidade“ e emburrecer as pessoas. Encurtam os textos, tiram o contexto, passam a doutrinar. Já não era mais jornalismo. Basta ver o que é a Veja hoje: uma máquina de propaganda da distopia da direita brasileira. Jornalismo ali é coisa rara. Quando aparece é obra solitária de algum jornalista.

Partindo do pressuposto de que a utopia é parte da consciência do ser humano, como o jornalista lida com sua utopia pessoal em veículos que têm visões de mundo divergentes, especialmente no caso dos oligopólios que dominam a informação?
Penso que o jornalista tem algumas opções na vida. Uma delas é a de ser fiel às suas utopias, aos seus sonhos, e aí, se ele está trabalhando numa empresa grande, que não tem compromisso nenhum com o jornalismo ou com a mudança do mundo, o seu compromisso é abrir brechas na parede. Muitas vezes os jornalistas são obrigados, por força da necessidade, de estar nesses lugares. Mas isso não significa que ele tenha de abortar suas utopias, sua vontade de narrar o mundo. Ele ou ela vai ter de pelear, lutar pelas suas matérias. Eu creio firmemente que um texto bom, bem elaborado, tem lugar mesmo nas “gosmas“. Pude comprovar isso na pesquisa. Belos textos aparecem na Veja e na Época. Porque certamente ali estavam jornalistas que transcenderam à mediocridade, à autocensura, e produziram belezas. E assim é no cotidiano dos grandes jornais ou revistas. Faz-se muita porcaria, mas vez ou outra a gente pode subverter, “oferecer a mais fina iguaria“, como dizia o Marcos Faerman. Tem uma professora da FURB, Universidade de Blumenau, Rosiméri Laurindo, que escreveu um livro muito interessante (com base em Adelmo Genro), no qual ela mostra bem como um jornalista pode virar um jornalista-marca, sem identidade, cativo dos desejos patronais, e como pode ser um jornalista-autor, capaz de voos solos, de textos eternos e de expressar a utopia da raça. 
Agora, é claro que também existem aqueles jornalistas que têm como utopia a construção do seu próprio mundo e aí viram serviçais do sistema, dos patrões, de um modo de vida que exclui a maioria. Com esses há pouco a fazer; temos de combater. Mas a maioria sonha com um mundo melhor e pode usar esse desejo para narrar a vida em movimento, narrar descrevendo, que é a melhor forma de transformar o mundo. Como dizia Bloch, é na visão do que não pode ser verdade que a gente caminha para o lá-na-frente onde todos possam bem-viver. Ou, nas palavras do Antônio Olinto: é na descrição que o jornalista formula a mais poderosa das opiniões.

O jornalismo tem de ser utópico? Qual a importância da utopia para o jornalismo?
Quem tem de ser utópico é o jornalista. Por exemplo, não dá para ver o despejo das famílias de Pinheirinho e não pensar que algo está muito errado. Na narrativa dessa violência deixar aberto para o leitor ou espectador a possibilidade de ele dizer: “isso não pode ser“. Essa é a utopia da qual o jornalismo é capaz. Levar o leitor espectador a pensar. Isso é praticamente uma revolução.

Historicamente, o jornalista foi abandonando a sua utopia por conta da empregabilidade, ou a utopia ainda faz parte da prática jornalística?
Faz, eu trabalho dioturnamente com jornalistas que utopicamente narram a vida. Estão aí nos sindicatos, nos movimentos sociais e até nas grandes empresas, nas pequenas cidades, na internet. São aqueles dos quais falei acima. Não se rendem, não se autocensuram, fazem as matérias, narram a vida em movimento. Se alguém os censura, o ônus não é deles. Eles fazem o que tem de fazer, descrevem a realidade, cumprem a sua utopia. A empregabilidade não pode servir de escudo para a gente se anular. Eu sempre dou meu próprio exemplo. Trabalhei em todas as áreas do jornalismo, TV, rádio, jornal, grandes empresas, sindicatos, instituições públicas e nunca deixei de ser quem sou ou de escrever, desvelando o que fica encoberto. Nem por isso morri de fome. A gente é demitido, passa aperto, mas a gente segue em frente. Temos outro projeto de vida.

Que utopias caracterizam as reportagens e, especificamente, o jornalismo do século XXI praticado no Brasil?
O jornalismo praticado hoje é muito ruim, se é que ainda é jornalismo. Chomsky diz que é mera propaganda. E isso vai da domesticação que uma boa parte dos cursos de jornalismo ajuda a fazer. Para se ter uma ideia, aqui em Santa Catarina o curso de Jornalismo tem uma “Cátedra RBS“, acredita? Ou seja, em vez de termos uma Cátedra América Latina, ou Cátedra Marcos Faerman, enfim, fatos e pessoas que acrescentam na formação do jornalista, o que existe é uma formação direcionada para o mercado que mais explora, que mais desinforma. Uma tristeza.
De qualquer sorte, temos um mundo a construir. A utopia do socialismo – por mais que digam que se acabou – segue viva, tremendamente viva. Na América Latina assoma hoje a luta dos povos originários por um modelo diferente de desenvolvimento, que eles chamam de bem-viver (sumac kausay). É uma inversão total da lógica, a negação do modelo capitalista que tanta miséria, dor e opressão traz ao mundo. Essa é uma boa utopia na direção da qual muitos de nós caminhamos. Socialismo, sumac kausay, terra sem males são eutopias (utopia que leva a um lugar bom) que merecem ser consideradas e conhecidas. Com isso em mente, podemos praticar o jornalismo como uma forma de conhecimento – tal qual ensinou Adelmo Genro. Não como manipulação à direita ou à esquerda, mas como uma singularidade que caminha para o universal, que leva o leitor/espectador a pensar, a se desalojar do mundo tal qual ele é – injusto, opressor, excludente. O jornalismo pode ser transformador, pode embalar a utopia. Mas, para isso, nos cursos de jornalismo, precisamos ensinar a pensar. O jornalista que pensa tem mais chance de caminhar na direção da utopia. 

O que dificulta hoje a produção de um jornalismo crítico?
Justamente a má formação. Hoje aposta-se muito mais na técnica. Prefere-se usar um curso de jornalismo para ensinar a gurizada a fazer web páginas, a usar o Premiere, o Ilustrator e tantos outros programas. Isso é muito bom, mas se não houver a prática do pensamento crítico, não vai servir de nada. Que adianta saber fazer uma página e não saber o quê escrever nela? O Marcos Faerman, que foi um grande repórter, dizia que esse papo de fazer texto curto é bobagem. Leitor só não lê texto ruim. Se for bom, se tiver contexto, impressão, descrição, se contar uma história, o texto carrega o leitor por páginas e páginas. Essa coisa de dizer que as pessoas não têm tempo para ler é mantra de quem ou não tem capacidade de escrever textos belos, ou está mancomunado com o sistema que quer fazer do público uma massa informe.
Eu ando por aí falando com os estudantes de jornalismo e vejo os olhinhos deles brilhando quando a gente fala em textos descritivos, impressionistas, cheios de histórias. É o que eles querem fazer. Para isso é preciso antes aprender a pensar, a perguntar, a investigar. É para tal finalidade que deveria servir a universidade. Para apresentar aos alunos os pensadores da nossa terra, os pensadores latino-americanos, tanta gente fantástica que produziu e produz um pensamento original, alavancado na experiência histórica e geográfica. E é uma gente desconhecida.

No livro você resgata teóricos como Danton Jobim, Alceu Amoroso Lima, Antônio Olinto e Celso Kelly, que não são muito utilizados nas universidades. Qual a contribuição deles para refletirmos sobre a prática jornalística?
Fundamental. Navegar pelas páginas desses autores nos ajuda a entender a história de uma época, nos leva a perceber os interesses envolvidos, os sonhos, as utopias de cada um e do tempo que eles representam. Jobim, por exemplo, é um dos primeiros a pensar uma filosofia do jornalismo. Ele é um liberal, apaixonado pelo modo de fazer jornalismo dos estadunidenses, mas se lido no contexto histórico, adquire uma beleza incrível. É fabulosa a defesa que ele faz da informação, contra o jornalismo opinativo que existia nos anos 1950. Claro que ele defende o modo capitalista de produção, a informação como produto, mas ele pensa um momento de mudança de temperatura do mundo. Nós precisamos conhecer isso, ver como o pensamento vai se formando e hegemonizando todo um fazer. Celso Kelly também tem suas complicações políticas, mas a teoria estética do jornalismo é uma beleza. A gente lê e a cabeça fica cheia de ideias, de pensamentos pulando, querendo sair. É instingante e perturbador. Alceu Amoroso Lima discute o uso das técnicas literárias no jornalismo, o que o “novo jornalismo“ vai fazer nos anos 1960 e 1970, e Antônio Olinto liga o jornalismo com a arte e tem um pensamento tão fecundo e inspirador que nos põe em ebulição. E não são apenas esses. Há outros, como Adelmo Genro Filho, que apresenta uma teoria do jornalismo, olha só. Isso é fabuloso. É um pensamento tão rico que chega a doer. Essa gente não é estudada.  

Atualmente, os cursos de jornalismo das universidades brasileiras têm um foco amplo na produção prática. A falta de um debate teórico acerca da conjuntura política, econômica, ambiental e de uma reflexão atenta da história do nosso país dificultam, de certa maneira, a proliferação do jornalismo utópico? Nesse sentido, que avaliação faz da formação jornalística propiciada pelas universidades?
Sim, dificultam a formação de alunos críticos, impedem que seus horizontem se abram, que conheçam em profundidade o seu espaço geográfico. Porque é diferente ser jornalista no Brasil, na América Latina. Há outros problemas, outras questões a serem pensadas, outros temas a serem abordados. As escolas seguem prisioneiras dos teóricos europeus ou estadunidenses. Gente boa, é certo, mas preocupada com outras coisas.
Penso que um aluno do jornalismo deveria ter uma sólida formação humanística, política e econômica; deveria entender os grandes problemas estruturais de seu país e de seu continente. Olha, eu tive a sorte de ter um professor – chamado Sérgio Weigert – que nos dava aula de problemas brasileiros. Ele nos colocava tontos com tanta informação acerca do nosso país. E tanto que o nosso trabalho final foi construir um projeto anti-hegemônico para o Brasil. Olha isso! Esse cara é um marco na minha vida porque ele nos ensinou que sem um mergulho profundo na filosofia, no pensamento germinal dos teóricos clássicos, a gente não vai a lugar nenhum. Com ele eu desembestei para o campo da filosofia e isso deixou o meu texto muito mais forte e muito mais denso.
A universidade é um lugar mágico. E os alunos podem escolher. Mesmo que os cursos sejam ruins, que os professores sejam medíocres, que direcionem suas mentes para a técnica ou para domesticação. Os alunos podem escolher não aceitar. Podem formar grupos de estudos, morar dentro da biblioteca, fomentar debates. A universidade dá muita liberdade. O que ocorre é que as gentes estão tão acostumadas ao cabresto que esquecem que podem mudar as coisas. Eu conclamo os alunos à rebelião. Eles podem.

Quais os principais desafios do jornalismo brasileiro hoje?
Primeiramente, há que mudar a universidade, subverter esse ensino que domestica. Há que se produzir um pensamento autóctone sobre o jornalismo, conhecer nossos pensadores do passado, avançar com eles, superá-los. Há que conhecer a história do nosso povo, há que estudar filosofia, reaprender a pensar. Depois disso, há que voltar a narrar a vida com um texto que descreve, que narra, que contextualiza.
Não há desculpas para mau jornalismo. Nem o tempo, nem as cinco pautas por dia, tampouco a multifunção. O bom jornalista encontra sua forma de burlar tudo isso. Seu compromisso deve ser com a informação que forma, não apenas o ritual informativo que informa sem estabelecer nexos. O jornalista é um feiticeiro que junta as letrinhas no caldeirão do texto. Dele tem de sair uma mensagem que incomode, que desaloje, que perturbe, que encha o leitor de aflição, que o mova para frente, que o faça pensar.
Há quem diga que o jornalismo morreu e que só exista propaganda. Eu não me curvo a essa assertiva, embora ela pareça arrasadora. O jornalismo resiste. Tem uma revista que se chama Retratos do Brasil, que faz bom jornalismo. Tem a publicação aqui de Santa Catarina, a Pobres e Nojentas, que faz bom jornalismo, têm uma infinidade de experiências por essa América Latina inteira. Os jornalistas estão aí, rompendo as barreiras, quebrando as regras do jornalismo domesticado. Basta que a gente tenha a delicadeza de saber ver. E utopicamente eu afirmo: isso haverá de ser maioria. Quando, não sei... mas, virá...

Deseja acrescentar algo?
Rebelião, rebelião, rebelião... Que os estudantes de todos os cursos de jornalismo do Brasil possam compreender que há mais coisas no jornalismo do que aquilo que é repetido em salas de aula. Ousem ouvir as vozes hereges, ousem criar grupos de estudo, ousem navegar nos livros velhos escondidos nas prateleiras. Esses não estão na internet, porque são perigosos demais.

Visul: fim da linha


Visul: fim da linha


Informações importantes vindas da cidade de Suzano-SP, dão conta sobre uma importante ação para solucionar o transporte público na cidade. O artigo publicado no "Blog do Luis CLaudio"nos dá um bom resumo sobre os problemas técnicos e políticos que foram enfrentados. 

É o fim de uma etapa de irregularidades que foi sustentada por parte da Câmara Municipal e pelo deputado que mente para o povo, Estevam Galvão de Oliveira.

Veja a matéria na integra abaixo ou no BLOG do Luis Claudio.

Decreto publicado hoje extingue contrato com a VISUL.
  
O prefeito Marcelo Candido publicou nesta sexta-feira (27/04) o Decreto nº 8.266/12 que “Decreta a extinção do contrato de concessão de serviços públicos”. O Decreto faz valer a decisão da Justiça, a pedido do Ministério Público, declarando nulo o edital de licitação 07/2004 e o contrato firmado entre a Prefeitura de Suzano e a Visul para prestar serviços de transporte coletivo em nossa cidade.

Não podemos nos esquecer que o contrato com a Visul foi assinado no dia 27 de dezembro de 2004, pelo então prefeito Estevam Galvão de Oliveira, quatro dias antes do prefeito Marcelo Candido tomar posse na prefeitura de Suzano. Aliás, o contrato com a Visul foi objeto de questionamento no período de transição de governo, foi solicitado ao Sr. Estevam que suspendesse a contratação da citada empresa para que fosse revisto o sistema de transporte no município, desde sempre deficitário.

Cabe questionar o porquê da manutenção de um contrato que já naquela época se mostrava fraudulento, como afirmam o Ministério Público e a Justiça. Até hoje não se esclareceu a relação do Sr. Estevam com a citada empresa de ônibus. A mesma empresa que desde 1962, ou seja, há 50 anos, presta serviços de transporte em nossa cidade. 

Assim, após 50 anos o povo de nossa cidade poderá finalmente se libertar de um péssimo serviço prestado aos usuários do transporte coletivo de Suzano. Várias foram as tentativas durante o Governo Marcelo Candido de reorganizar o sistema de transporte de nossa cidade. Conseguimos regularizar o transporte alternativo, instituir a integração tarifária e manter até hoje a menor tarifa da região. Poderíamos ter avançado mais não fosse a ação da oposição raivosa que não se preocupa em melhorar a cidade, preocupa-se apenas com os resultados eleitorais de suas ações.

Lembremos o Projeto de Lei do SIM (Sistema Integrado Municipal), apresentado em 2006 pelo prefeito Marcelo Candido e rejeitado pelos vereadores de oposição. O SIM tinha como elemento fundamental a reorganização do transporte público em Suzano e, portanto, garantir um transporte de qualidade aos usuários do sistema. Além disso, promover a integração com o trem e o metrô e, sobretudo, exigir da empresa de transporte a melhoria da qualidade no serviço. Ora, se o projeto era bom para a cidade porque foi rejeitado pela oposição? Será que as relações entre os vereadores de oposição, o Sr. Estevam e a Visul é a mesma? Qual o interesse dos vereadores de oposição em manter um contrato tendencioso, fraudulento e que prejudica a maioria da população?

O que podemos perceber é a estreita relação daqueles que votaram contra o Projeto SIM, a Visul e o Sr. Estevam, todos farinha do mesmo saco, que na história de nossa cidade sempre trataram Suzano como quintal de sua casa. Foram quase 30 anos de desmandos, da prática do favorzinho e de um visível enriquecimento no período em que estiveram no comando da Prefeitura.

Não bastasse toda esta história, hoje os mesmos que votaram contra o Projeto SIM se apresentam como salvadores da pátria. Vereadores como Israel Lacerda e Rafael Garcia que votaram contra o Projeto SIM, sempre vinculados à cozinha do Sr. Estevam, nunca defenderam os interesses da cidade e agora apresentam projetos milagrosos para resolver os problemas que foram criados por eles. Estes senhores criam dificuldades para vender facilidades. Esse é o projeto político que eles querem para Suzano: atrapalhar a cidade e atender aos seus interesses de grupo. 

Mas o tempo passou, a cidade mudou. Talvez eles ainda não tenham percebido mas Suzano mudou, mudou muito! E para melhor. 

A mudança não vai parar! A possibilidade que se abre com o fim do contrato com a Visul, reforça o sentimento popular nas ruas de nossa cidade: as práticas do favorzinho, do favorecimento pessoal, da força do poder econômico, representadas pelo passado, estão no caminho da extinção. O Governo Marcelo Candido mostra mais uma vez ousadia, coragem e a determinação de fazer um governo para todos e todas.

terça-feira, 1 de maio de 2012

Festival de samba começa hoje


02 a 06.05 – É Tradição e o Samba Continua

Esta é a segunda edição do encontro de sambistas paulistas da velha e da nova geração. Serão reverenciadas figuras representativas do samba paulista como Adoniran Barbosa, Toniquinho Batuqueiro, Paulo Vanzolini, Vadico, Osvaldinho da Cuíca, Eduardo Gudin, Geraldo Filme, entre outros.
Programação:
  • Dia 02: Quinteto em Branco e Preto convida Virgínia Rosa e Célia
  • Dia 03: Fabiana Cozza convida Adriana Moreira e Tereza Gama
  • Dia 04: Comunidades do Samba – Samba dá Cultura, Maria Cursi, Samba da Tenda e Pagode da 27
  • Dia 05: Mulheres do Samba – Ana Elisa, Elizeth Rosa, Graça Braga, Railídia e Dona Inah
  • Dia 06: Toinho Melodia, Chapinha, Osvaldinho da Cuíca e Velha Guarda da Camisa Verde e Branco (Mestre Sala e Porta Bandeira)
Serviço
2 a 6 de maio, quarta a sábado, 21h, domingo, 20h
Auditório Simon Bolívar. Ingressos: R$ 6,00 e meia-entrada.
Bilheteria: 02 a 06, a partir das 14h.
2 a 6 de maio, quarta a sábado, 21h, domingo, 20h É Tradição e o Samba Continua


Fundação Memorial da América Latina
Av. Auro Soares de Moura Andrade, 664
01156-001 - Barra Funda - São Paulo SP
Telefone: 11 3823 4600 

Ao lado do Metro Barra funda 

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Aqui tem Cultura Publica - Suzano


Antônio Abujamra e Rappin Hood vêm a Suzano para palestra e show

Diário de Suzano ed.: 9186 - 26 de abril de 2012

O diretor e ator Antônio Abujamra se apresenta nesta hoje, às 20 horas, no Teatro Municipal Dr. Armando de Ré (Rua General Francisco Glicério, 1.354, Centro). Além dele, amanhã, a cidade também recebe o show do rapper Rappin Hood, que será realizado no Centro Cultural Boa Vista (Rua Katsutoshi Naito, 957, Boa Vista), a partir das 18 horas.

Realizados pela Prefeitura de Suzano, por meio da Secretaria de Cultura, os eventos são gratuitos e fazem parte da programação de aniversário dos 63 de Suzano.

A palestra com Abujamra faz parte do projeto "Trajetórias Literárias", que já trouxe a Suzano nomes como Ariano Suassuna, Marcelo Rubens Paiva e Paulo Lins. Os ingressos deverão ser retirados no local com uma hora de antecedência.

"Seria inadmissível não trazê-lo a Suzano. Ele tem uma contribuição muito grande a dar à cidade por sua experiência e talento. Ele dialoga com TV, teatro, jornalismo, literatura e cinema e vai abarcar todas essas áreas em sua apresentação", ressaltou Ademiro Alves, o Sacolinha, coordenador literário da Secretaria de Cultura.


Abujamra já dirigiu mais de 120 peças, 15 novelas e vários outros programas televisivos. Foi o único latino-americano a participar no Júri do Festival Mundial de Televisão em Monte Carlo, a convite do Príncipe Rainier, de Mónaco. Fundou a companhia de teatro "Os Fodidos Privilegiados" e há 11 anos comanda o programa de entrevistas "Provocações", na TV Cultura.

Nascido em 1932, no município paulista de Ourinhos, Abujamra foi um dos primeiros a introduzir os princípios e métodos teatrais de Bertold Brecht, Roger Planchon e outros mestres da contemporaneidade em palcos brasileiros. Participou da revolução cênica entre os anos de 1960 e 1970. Ousadia, inventividade e espírito provocativo são características de seu trabalho. Nos anos 1980 e 1990, desenvolveu espetáculos em que crítica e lúdico se fundem num ceticismo bem-humorado, que é o eixo de sua personalidade.


Entre os nomes já dirigidos por ele, estão António Fagundes, Lima Duarte, Paulo Goulart, Denise Stoklos, Ana Paula Arósio, Cláudia Jimenez, Cláudia Abreu, Marcos Palmeira, Cacilda Becker, Glauber Rocha, Ruth Escobar, Regina Duarte, Marília Pêra, Eva Wilma, Tássia Camargo e António Grassi, entre muitos outros.

RAPPER Rappin Hood é um dos mais conceituados e respeitados rappers brasileiros. Já gravou com artistas consagrados, como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Jorge Ben Jor e Leci Brandão, entre outros. Foi pioneiro a abordar o tema hip hop na televisão brasileira, no programa "Manos e Minas", na TV Cultura. Atualmente apresenta o programa "Rap du bom", na rádio 105FM.


A programação desta sexta-feira começa às 18 horas, com a apresentação dos grupos de Suzano: Consciência ao gueto, Família Dossyê e Ktarse. A expectativa é atrair um público de mais de duas mil pessoas.

"Já vieram para a cidade Racionais MCs, GOG, Edi Rock, entre outros, mas ainda faltava trazer um artista que mesclasse o envolvimento social e cultural e o Rappin Hood reúne todas essas qualidades", destacou Sacolinha.

Salão Internacional do Livro de Suzano recebe público de 100 mil pessoas


Evento organizado pela Prefeitura, por meio da Secretaria Municipal de Educação, trouxe diversas personalidades ao município e contou com vasta programação cultural
WANDERLEY COSTA
O I Salão Internacional do Livro de Suzano, promovido pela Prefeitura de Suzano, por meio da Secretaria Municipal de Educação, recebeu mais de 100 mil visitantes de várias cidades do Alto Tietê e região metropolitana. O evento foi realizado entre os dias 13 e 22 de abril, no Parque Municipal Max Feffer, e superou as expectativas dos organizadores. Para a realização do evento, inédito no Alto Tietê, foram investidos R$ 3,5 milhões.
Ao longo dos dez dias de evento, foram realizadas no local mais de 100 horas de programação nos diferentes espaços temáticos, elaborados conforme o perfil dos visitantes: Trajetórias Literárias, que trouxe escritores para conversar com o público; Encantos Pedagógicos, voltado para a formação de educadores; Espaço Criança e Tenda do Circo, com contação de histórias e apresentações teatrais; Literatura no Brasil – Autores Regionais, que promoveu sessões de autógrafos e apresentações culturais de artistas de Suzano e região; Ciranda Lilás, voltado às discussões sobre gênero e raça/etnia; e Suzano + 20, que discutiu a temática ambiental.

A estrutura do salão tinha 10 mil metros de área física, 61 estandes, cerca de 400 editoras e mais de 30 mil títulos em exposição.

Autores renomados das áreas da literatura, educação, cinema e televisão, como Mario

Sergio Cortella, Marcia Tiburi, Fernando Carraro, Heródoto Barbeiro, Audálio Dantas e Paulo Lins, revezaram-se em palestras e bate-papo com seus fãs. Eles falaram sobre suas trajetórias de vida e desafios da profissão.

Um dos principais objetivos do I Salão Internacional do Livro de Suzano foi despertar nos cidadãos o desejo pela leitura, aproximá-los dos livros e de seus autores. Para que isso acontecesse efetivamente, a Secretaria de Educação disponibilizou ônibus gratuitos para toda a população em todos os dias do evento, inclusive aos finais de semana.

Os 23 mil alunos da rede municipal também puderam prestigiar o salão. Diariamente eles foram transportados para o evento, onde participaram de atividades de contação de histórias, teatro e música na “Tenda do Circo”. Todos eles receberam ainda um cheque-livro no valor de R$ 10, para aquisição de material a livre escolha.

Os professores também receberam um cheque-livro de R$ 20 e as escolas, um crédito no valor de R$ 3.800,00 para aquisição de material didático que serão utilizados nas unidades escolares.

Uma das principais atividades do salão foi o lançamento da Escola Livre de Trabalhadores, realizado em 19/4, e que contou com a presença da professora da Universidade Livre do Porto, de Portugal, Teresa Medina, que falou sobre a experiência vivenciada em seu país.

O programa pretende recriar na cidade as experiências de educação feitas por trabalhadores de outras partes do Brasil e do mundo, que afirmam as práticas culturais como direito a ser garantido às camadas populares e aos trabalhadores.

A Escola Livre de Trabalhadores de Suzano terá um conselho consultivo composto por escolas, sindicatos, empresas e comunidade, que irá determinar as atividades.

O prefeito de Suzano, Marcelo Candido ressaltou a adesão da população à atividade. “O evento superou as nossas expectativas”, disse ele sobre o grande número de visitantes.

Candido disse que organizar o Salão do Livro foi um grande desafio à administração, e que o objetivo é que a população se aproprie dele para que outras edições sejam realizadas. “Apesar de ser o primeiro, o salão já é uma referência importante para a cidade e razão de muito orgulho”, completou.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Dica a leitura

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A produção cultural nas periferias


Em São Paulo há 96 distritos, dos quais 57 ficam na periferia e somam 6.838.641 habitantes. Essas pessoas estão distantes dos grandes centros onde são instalados cinemas, teatros, casas de espetáculos da cidade. O jeito, então, é fazer a cultura existir nas suas quebradas
Sarau da Cooperifa: 10 anos movimentando a zona sul de São Paulo
Sarau da Cooperifa: 10 anos movimentando a zona sul de São Paulo
Foto: http://www.curtasaraus.blogspot.com
O habitante da capital paulista, conhece as periferias de sua cidade? E a produção cultural surgida e muitas vezes autofinanciada que lá acontece? Com a pauta sobre o tema, constatei que conheço pouco ou praticamente nada da periferia.

Mais gente vive assim, sem saber o que está acontecendo por aí... Por meio da internet é possível “ir” um pouco até as periferias, ter uma noção do lado B da diversidade cultural brasileira. Cada periferia tem sua especificidade e, dependendo do enfoque, ela pode ser um conceito relativo. Mas o resumo simplista para definir periferia pode ser como o local onde pessoas vivem, fora do centro das grandes cidades. Para a urbanista Raquel Rolnik, a cultura da periferia ganhar cada vez mais espaço dentro e fora dela.

Em São Paulo há 96 distritos, dos quais 57 ficam na periferia e somam 6.838.641 habitantes, ou seja, 63% da população, com dados do IBGE de 2010. São onze regiões com população acima de 200 mil habitantes. Todas na periferia: Sapopemba, São Miguel, Jardim São Luís, Jardim Ângela, Jabaquara, Itaquera, Itaim Paulista, Grajaú, Cidade Ademar, Capão Redondo e Brasilândia. População total: 2.688.757 habitantes, mais do que em quase todos os 39 distritos não periféricos de São Paulo juntos. É importante saber como  vivem essas pessoas. Um povo pobre, trabalhador, que luta e busca ser feliz apesar de tudo. “Um povo lindo, um povo inteligente”, como dizem os poetas da Cooperifa. Um povo que merece ser visto pelas lentes da TV mostrando aquilo que tem de mais bonito.

Já disse Antônio Abujamra, em seu programa Provocações, que “as periferias desse enigma brasileiro, periferias que, ao contrário do que era de se esperar, vão buscar inspiração na Jamaica para fazer músicas de letras quilométricas: rap, hip-hop, funk. As pessoas, gostem ou não dessas coisas, não podem ignorar que é por onde a periferia descarrega seu discurso político; avisando à classe média e às elites para irem devagar, que as coisas têm limite”.

“Esse grande estilo de vida que é o hip-hop está aí pra criar alternativas ao que está aí exposto”, explica o rapper GOG. Genival Oliveira Gonçalves também é das periferias, mas de Brasília. Mais antigo, tem no discurso não só uma das questões básicas que definem periferia, a exclusão social, mas também o tema racial, de crítica à mídia corporativa e, indo além, em nome dos que morreram torturados pela ditadura.

Se a produção cultural da periferia seguir GOG, muita coisa poderá ser diferente no futuro... Os militantes do setor acreditam que a cultura revoluciona. É uma boa aposta! Ele crê na mudança do modus operandi... E vai direto ao ponto: “Se não nos dão oportunidade de mostrar, vamos criar todo um mundo paralelo para fazer isso. É preciso dizer que no Brasil existe uma luta de classe, de verdade!”.

Não só as palavras, muitas vezes duras, do hip-hop estão nas periferias. Saraus de poesias, cinema na laje, peças de teatro, exposições e instalações artísticas.

Indignações seletivas: a crise da USP


Protesto na USP pela expulsão de estudantes
Protesto na USP pela expulsão de estudantes
Foto: Folhapress/Nelson Antoine
Lemos no noticiário que seis estudantes da Universidade de São Paulo foram expulsos da instituição devido à suposta participação em atos de vandalismo ocorridos na ocupação da Coordenação de Assistência Social (Coseas) em 2010. O reitor, João Grandino Rodas, alega que um processo disciplinar instaurado após o evento teria comprovado a participação dos seis estudantes da Escola de Comunicação e Artes e da Faculdade de Filosofia na depredação do patrimônio e desaparecimento de documentos. Os alunos negam e asseguram que devolveram tudo que estava no prédio em ato público; alguns ainda afirmam que nem sequer estiveram na ocupação, o que caracterizaria então uma perseguição política.

É sintomático que as expulsões ocorram no mesmo ano em que a polícia entrou no campus, por solicitação do reitor, para retirar os alunos que também ocuparam o prédio da reitoria para protestar contra a presença de policiais na USP, que, em nome da segurança após o assassinato de um aluno da Faculdade de Economia, estariam abordando alunos e até professores (quase todos dos cursos de Humanidades, é bom que se diga) com o famoso modus operandi truculento da tropa paulista. E em um momento que alguns professores, em nome da “legalidade”, estariam reprovando alunos por faltas em razão da greve que realizam desde a invasão da polícia ao campus. Em todos esses casos, não faltaram vozes da chamada “opinião pública” felicitando a direção da universidade pelo rigor contra os “vagabundos” e “maconheiros”.

Decerto que ninguém em sã consciência defenderia gratuitamente depredação de patrimônio público ou a aprovação de alunos sem a devida presença em situações normais, mas não parece ser esse o caso. A universidade brasileira, e em especial a USP, parece estar vivendo um grande déficit democrático, com uma estrutura incapaz de responder de forma adequada, e sem truculência, aos problemas internos. Comparar as manifestações dos alunos com uma simples “baderna”, sem abrir espaço para um diálogo realmente propositivo, inclusive para dissuadir eventuais posturas mais extremistas de grupos políticos mais radicais, é no mínimo má vontade. E aplaudir o acionamento de forças de repressão para resolver esses problemas é um atestado de incompetência acadêmica e política.

Mas a estranheza fica maior quando comparamos o rigor e o rito quase sumário dessas decisões uspianas com eventos que ocorreram há pouco tempo e não parecem ter despertado a mesma indignação nos paladinos da law and order que grassam hoje pela internet e por outras mídias. Em outubro de 2010, no InterUnesp, evento dos alunos da Unesp, alguns desses discentes organizaram pelas redes sociais aquilo que ficou conhecido como “rodeio das gordas”, que consistia em subir violentamente nas costas de alunas consideradas “feias” ou “gordas” como se estivessem em cavalos de rodeio. Após repercussão negativa na imprensa, foi aberto processo disciplinar e os três alunos identificados como promotores dos atos violentos foram apenas suspensos por cinco dias. Os organizadores do InterUnesp decidiram bani-los das próximas edições. O Ministério Público das cidades de Araraquara (onde ocorreu o evento) e de Assis (onde fica o campus de alguns dos acusados) resolveram agir e propuseram a não abertura de processo se cada um doasse vinte salários mínimos em cestas básicas a instituições assistenciais. Dois deles aceitaram. O que recusou foi processado por danos morais e, caso condenado, deverá pagar cinquenta salários mínimos de indenização.

Salvo algumas notas na imprensa, quase ninguém se manifestou com o mesmo furor contra esses jovens que praticaram tal violência contra alunas da universidade, para não falar da punição branda que a própria instituição aplicou, apesar dos comunicados indignados divulgados pela direção à época. Cabe a pergunta: dois pesos e duas medidas? Uma manifestação, independentemente de equivocada ou não, contra um regimento interno do período da ditadura militar é descrita como “baderna”. Outra, típica da misoginia que anda de mãos dadas com outras formas de intolerância em nossa sociedade, é tratada como algo apenas pueril. Uma questiona estruturas de poder retrógradas na sociedade, outra é expressão típica dessas estruturas. Se fosse honesto o legalismo mobilizado por dirigentes e alguns professores para aplicar punições, seria de esperar rigor idêntico para ambos os casos e uma onda de indignação pelos chamados formadores de opinião em seus blogs. Mas não foi isso o que observamos.

Certamente não chegam a ser estranhas essas indignações seletivas, quando vemos casos como o do recente livro do jornalista Amaury Ribeiro Jr., lançado no final de 2011. Repleto de dados sobre irregularidades nos processos de privatizações promovidas no governo FHC e sério candidato a best seller pela grande procura nas livrarias, A Privataria Tucana passou quase desapercebido pela imprensa e por seus leitores, vanguardeiros da moralidade...  
Agnaldo dos Santos é professor da Unesp-Campus Marília e membro do Núcleo de Estudos d’O Capital do PT-SP

Juventude, juventudes


As juventudes apresentam elementos comuns e de diferenciação. Atentar para esses aspectos pode ser crucial para discutir as políticas públicas voltadas para esse segmento e, talvez o principal, problematizar as especificidades do papel da instituição escolar no mundo atual
Diversidade das juventudes é fundamental para gerar política públicas amplas
Diversidade das juventudes é fundamental para gerar política públicas amplas
Foto: José Cruz/ABr
Discutir a juventude na contemporaneidade leva-nos a tomar duas precauções importantes: entender que a noção de juventude é uma construção social e cultural e, além disso, bastante diversificada; e compreender que a noção de juventude não pode ser definida isoladamente, mas a partir de suas múltiplas relações e contextos sociais. Nesse sentido, pensar a ideia de juventude é pensar sobre condições de gênero, raça, classe social, moradia e pertencimento religioso. E, o principal, contextualizá-la historicamente, como integrante de uma geração específica que se relaciona com outras gerações. Por isso, como já tem sido bastante reiterado pelos especialistas, não é possível falar no jovem atual, mas nos diferentes modos de vivenciar a juventude na contemporaneidade.

“A ‘juventude’ é apenas uma palavra”, afirma Bourdieu, ao abordar a noção de juventude. Para ele, as divisões entre as idades seriam arbitrárias: “Somos sempre o jovem ou o velho de alguém”. Sendo assim, os cortes, em classes de idade ou em gerações, teriam uma variação interna e seriam objeto de manipulação. Portanto, juventude e velhice não seriam dados, mas construções sociais oriundas da luta entre os jovens e os velhos. Dessa maneira, as relações entre idade biológica e social seriam muito complexas. Pode-se apreender, portanto, que tal noção configuraria um elemento que faz sentindo somente no contraste entre os mais novos e os mais velhos.

Entretanto, para outros autores estudiosos da juventude e de suas práticas, seria mais que uma palavra. Em texto cujo título já apresenta um contraponto a Bourdieu – “A juventude é mais que uma palavra” –, Mario Margulis e Marcelo Urresti propõem a superação de considerações sobre a juventude como mera categorização por idade, com características uniformes: “A condição histórico-cultural de juventude não se oferece de igual forma para todos os integrantes da categoria estatística jovem” (tradução  minha). Para eles, a discussão feita por Bourdieu leva à percepção da juventude como “mero signo”, como “uma construção cultural desgarrada de outras condições”. Assim, a noção, como definida por Bourdieu, é desvinculada de seus condicionantes históricos e materiais.
Os dois autores reforçam a necessidade de atentar para o modo como a condição de juventude manifesta-se de forma desigual conforme outros fatores, como classe social e/ou gênero. Não se constitui, portanto, um conceito unívoco. Contudo, ressaltam que assim como não se deve considerar apenas os critérios biológicos de idade para definir juventude, não se pode também levar em conta apenas os critérios sociais

Drogas e Cidadania - Episódio 02


Drogas e Cidadania - Episódio 01


Visita ao RIO


A aprovação de Dilma e o debate sobre a oportunidade da CPMI, por Elói Pietá


"Agiu bem nosso partido ao decidir desde o início pela CPMI, e nossos parlamentares ao assiná-la"


Com 64 % de ótimo e bom para o governo Dilma, colhido pelo Datafolha na sua última pesquisa, prossegue o debate entre nós a respeito da oportunidade da CPMI do caso Demóstenes e Cachoeira. Dizem alguns: “Se o governo está indo tão bem, por que bulir na política?”. A ponderação tática a favor deste argumento vai na linha de que a governabilidade na sociedade está sólida, mas a governabilidade no Congresso passa por tensões, e a CPMI agrava estas tensões.
A argumentação tática favorável à CPMI, por sua vez, considera que os principais atingidos são proeminentes membros da oposição, que tanto atacaram o governo. É hora de amplificar seu desgaste, de mostrar a falsidade dos ataques udenistas, de enfraquecer a blindagem com que setores da mídia protegem a oposição.
Mas, além destas e de outras argumentações táticas, estão em jogo duas questões estratégicas da mais alta importância. Uma, a oportunidade de debater na sociedade a necessária reforma do Estado brasileiro. Não é verdade, como órgãos da mídia tem tentado passar à opinião pública, que o foco da CPMI é apenas a relação do grupo de Cachoeira com políticos. Precisam também ser investigadas suas relações com o Ministério Público, com o Judiciário, com a Polícia. Outra importante questão estratégica é o debate de medidas para deter o avanço do crime organizado. Por isso devem constituir também foco da CPMI suas relações com empresas privadas, inclusive com alguns órgãos da mídia, como a revista Veja.
Por tais razões, são de grande importância a escolha dos membros da CPMI, as escolhas que eles vão fazer sobre os rumos da investigação, e a participação nestes debates dos setores organizados da sociedade.
O caso em foco vai além dos políticos. O exemplo mais marcante é o próprio Demóstenes Torres. Ele é senador por eleição, mas é membro do Ministério Público de Goiás por concurso, onde ocupou o mais alto posto. Há fortes suspeitas sobre as ações de Benedito Torres, atual procurador geral de Justiça de Goiás, e mais outro membro proeminente do MP daquele estado.  O Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP) já decidiu abrir investigação sobre eles. O mesmo CNMP deu um sinal recente de que está disposto a cortar na própria carne, como faz a Polícia Federal, e como deve fazer qualquer instituição que queira se preservar. Na semana que passou, puniu o procurador da República em São Paulo, Matheus Baraldi Magnani, por violar segredo de Justiça, a partir de uma representação que fiz contra o procurador. A pena foi de demissão, transformada em suspensão por 90 dias. Ele abusou de seu cargo para fazer política contra o PT. Leu errado um processo do Tribunal de Contas da União, não se deu o trabalho de verificar o que realmente tinha sido pago pela obra em questão, apressou-se a concluir um superfaturamento que não existiu. Por 9 votos a 2, o CNMP, no qual 7 membros são representantes do Ministério Público, tomou esta decisão inédita.
O Brasil está se tornando mais exigente. A alta popularidade da presidenta Dilma tem seu complemento também na convicção generalizada de que ela, além de conduzir com competência a economia, defende valores importantes para a sociedade. Entre eles, a ética nas instituições públicas, um valor forte na tradição do PT, pelo qual muitos de nós sofremos perseguição, ameaças, e alguns pagaram com a própria vida. Agiu bem nosso partido ao decidir desde o início pela CPMI, e nossos parlamentares ao assiná-la em peso. Será um ganho estratégico para aperfeiçoar a democracia brasileira, e tem tudo para ser uma vitória tática.
Elói Pietá é secretário geral nacional do PT